Demônio – piercing e brincos
Era uma madrugada de outono paulistano, fria e com garoa. Passavam nas ruas poucos carros, poucos ônibus. Havia samba e pagode em bares que não fechariam antes da noite e do dinheiro acabarem. Neles, gente animada naquele estado no qual se bebe o que é líquido e está no copo.
Havia, num canto qualquer da cidade, uma boate com tubos de neón vermelho escrevendo “Hellhound” e um gorila de terno e óculos escuros na entrada, ambos silenciosos. Havia apenas o tremor surdo de música explodindo lá dentro, poderoso e convidativo. Daqueles que davam gelo no estômago de Wagner, que se preparava para entrar. Era uma das poucas boates da cidade que nunca tinha visitado e parecia promissora. Ajeitou o colete de couro preto, bagunçou o cabelo, bateu com o piercing nos dentes por brincadeira e atravessou a rua.
Deu dois tapas no ombro do segurança. Era a primeira vez que o via:
-Olá, Jorge.
Jorge, o segurança, sorriu de canto de boca e abriu o portão para ele.
Wagner deu uma piscadela para as atendentes dos caixas e para o homem que pretendia revistá-lo. Eles sorriram de volta e não fizeram nada, enquanto Wagner entrava na boate. Atravessou o lobby relativamente calmo, chegou a uma escada de metal que levava lá para baixo. Cruzou os braços sobre o corrimão e observou.
A boate fervia. Fumaça perfumada, luz estroboscópica e som ensurdecedor. Gente demais em pouco espaço – por isso era bom – dançava sob a batida pesada. Havia duas dançarinas da casa sobre as mesas e muitos gritos ao redor. Copos virados no bar, mais aos fundos. Gente rindo, gente se beijando, gente tímida mudando. Wagner sorriu e desceu as escadas, o som da música vibrando o aço sob seus coturnos.
Chamava a atenção naturalmente e de forma terrível. Goles, beijos, danças caiam para o segundo plano na mente de quem o via. Mãos alisaram seu corpo ossudo, magro a ponto de ser andrógeno, apertado numa camisa de banda justa e calças de couro coladas. Sentiu alguém arrancar fios de seu cabelo desordenado; esse alguém cheirou-o e desmaiou de prazer. Era difícil cruzar o olhar com ele e se sustentar em pé. Os lábios de todos se entreabriam, úmidos. Após sua passagem, instalava-se fundo na alma um desespero sexual que deveria ser sanado imediatamente, e ninguém tardava para fazê-lo.
Wagner sentou-se numa cadeira perto do bar. Casais afogavam o pudor em beijos embriagados. Ele piscou para a bartender, que passou um pano no balcão, tomando o cuidado para se abaixar o bastante para seu decote se tornar apenas vulgar demais. Ele disse algo que, apesar do som ter abafado completamente, ela compreendeu; ler os lábios carnudos de Wagner era fácil e irresistível.
-Surpreenda-me -foi o que ele disse.
Enquanto álcool e gelo se misturavam no shaker, Wagner puxou do bolso do colete um cigarro, que já estava aceso, apesar de nunca queimar o couro. Jogou as brasas sobre papel plastificado sobre o balcão que dizia “proibido fumar”. Todos viram, mas ninguém repreendeu. Ao contrário, sentiram um ímpeto opressivo em transgredir alguma regra, infligir algum dano, cometer algum pecado, e eram o que tratavam de fazer.
Tabaco. Drogas. Urina, vômito. Álcool. Suor. Colônias, perfume de cabelo de mulher. O ar estava pesado dos melhores aromas e da batida potente das caixas de som. Wagner batia os dedos ossudos e longos do mármore branco e tragava o cigarro. Chegou seu copo largo e baixo, cheio até a boca; bebeu num gole e deixou um gelo na boca. Apagou o cigarro no gelo que sobrou no copo e levantou-se.
Perdeu-se na multidão e em suas carícias. A sensação era ótima, mas Wagner estava acostumado. Rolava calmamente o gelo na boca quente, batendo no cubo o piercing da língua. Procurava, dentre tantos humanos, alguém que lhe despertasse o apetite. Encontrou uma ruiva artificial, de olhos de safira e batom preto. Ela fumava um cigarro cuja fumaça, densa, dizia que não era do tipo que se compra na padaria. Puxou-a para um beijo e ela aceitou. Rolaram o gelo de boca para boca, lentamente, até derretê-lo. Ela arrancou sangue do lábio dele com uma mordida falsamente inocente e riu. Wagner, sorrindo, deu-lhe um tapa forte no rosto. Ela gargalhou.
Wagner saiu da boate pouco tempo depois, lambendo o lábio ferido. As caixas e o segurança ainda mantinham o mesmo sorriso perdido no rosto e não lhe cobraram nada. A festa continuou, e as pessoas nela só tinham uma vaga noção de quem -ou melhor, do quê -havia passado por elas. A sensação que realmente ficou era: o inferno é agora, é aqui, e não é assim tão ruim.
***
Poucas horas depois, Wagner despertou, nu, na cama de uma garota qualquer que havia encontrado na rua. Não precisava realmente dormir, assim como não precisava comer, beber ou transar. Mas eram coisas que lhe davam um imenso prazer e, na situação atual, pretendia curtir essas coisas o máximo que pudesse.
Para ele, elas estavam chegando ao fim.
Levantou da cama. Cruzou os dedos, e então havia um cigarro aceso entre eles. Pousou-o entre os lábios, marcados pelas dentadas da moça que agora dormia profundamente sob o edredon branco, recentemente manchado de vermelho. Vestiu-se. A camisa de banda e o colete de couro agora eram um moletom surrado, exibindo várias tonalidades de cinza e uma estampa descascada de caveira nas costas. A calça virara uma bermuda camuflada com vários bolsos. Pôs o all-star, ex-coturno, e os seis brincos que lhe enchiam a orelha esquerda. Apagou o cigarro nas costas nuas da garota adormecida: seu último presente, sua última marca. A garota gemeu de prazer. Deu uma última olhada na mobília branca, nos ursinhos de pelúcia na estante e no computador com adesivos fofinhos e sorriu. Saiu.
A família da moça estava à mesa, almoçando. A mãe ajudava as duas crianças pequenas a se servirem. O pai, um senhor de cabelos grisalhos e postura arquetipicamente austera, convidou-o a sentar-se, com um sorriso estampado. Wagner recusou com um obrigado.
-Vai recusar meu frango à parmeggiana? -disse a mãe, também uma senhora, com um jocoso tom de tristeza e um muxoxo.
-Infelizmente, sim. -disse Wagner, sorridente, enquanto lhe beijava levemente os lábios. O pai não sentiu ciúmes; no lugar, um leve estremecer de inveja, que disfarçou ajeitando os óculos -Tenho trabalho a fazer. Uma reunião com a minha chefa.
-Em pleno domingo? -assombrou-se o pai. Também queria dizer que deveria se tratar de uma desculpa, e que ele larga-se mão da timidez e se sentasse com eles à mesa.
-Pois é! Mas, fazer o quê, a gente nem sempre pode escolher o trabalho que pega. -disse Wagner, junto à porta. -Bem, obrigado pela noite!
-Não foi nada, belo. -respondeu sorridente a mãe. E então, com um pesar de ansiedade na voz -Quando voltará?
-Nunca. -respondeu Wagner, sorrindo, e saiu para a rua.
***
Era uma manhã cor-de-chumbo. O ar carregado de eletricidade e a brisa úmida previam uma boa chuva mais tarde. Ou vai fazer um puta sol, pensou Wagner, caminhando até o ponto de ônibus, com as mãos nos bolsos da bermuda . Os pêlos da canela estava arrepiados. É assim que essa cidade funciona.
O ônibus que ele pegaria já estava no ponto, porque Wagner tinha suas maneiras de fazer esse tipo de coincidência acontecer. Subiu. O motorista ajeitou os óculos escuros e abriu um largo sorriso para ele, e Wagner cumprimentou-o pelo nome -”Tudo certo, Teixeira?” -mesmo nunca tendo-o visto antes. Uma lágrima escorregou por debaixo dos óculos do Teixeira, e depois outra. O sorriso se alargou ainda mais, e ele fungou de alegria.
Havia nos assentos reservados da seção frontal do ônibus havia apenas duas senhoras, que conversavam sobre o neto de uma delas, que havia sofrido um acidente na véspera e estava todo quebrado num hospital público qualquer. Uma conversa aquecida pelos nervos -a avó xingava o Governo a cada minuto, repetindo-se sem parar, e a outra concordava furiosamente. Quando Wagner surgiu, porém, ambas pararam. O dedo indicador que a avó agitava no ar enquanto dizia o que diria ao governador caso ficasse cara-a-cara com ele ficou petrificado. Wagner fez um cafuné no cabelo macio e branco delas e sorriu. Até a chegada do ponto de Wagner, as duas não parariam de olhar para ele, e aquele dedo indicador não sairia do lugar. A avó perderá o ponto, esquecerá do neto por dois dias, e será acusada mais pela filha de esclerosada: “Como assim, não se lembra o que te distraiu? Velha mentirosa, caduca!”
A porta fechou num resmungo pneumático e o ônibus partiu. Wagner pulou a catraca sem cerimônia alguma, nem censura por parte da cobradora -que se chamava Evanilde. Wagner cumprimentou-a, chamando-a de Eva; ela apenas sorriu e continuou a lixar as unhas. Mulher de fibra. Bem mais que a primeira, pensou.
O ônibus estava relativamente vazio: não havia ninguém em pé, exceto por um cara pronto para descer no próximo ponto -não desceria, fascinado com Wagner – e por um rapaz de olhar abobalhado ao lado da namorada, que estava sentada e segurando duas mochilas, uma sua e uma dele. A atenção dela havia sido atraída para Wagner no momento que o all-star dele tocou o primeiro degrau do ônibus: como se um elástico tivesse acertado sua bochecha e ela, por reflexo, tivesse se virado para lá. Aliás, a dor do tal elástico era real. Ninguém sabia, nem sequer seu namorado, e nem saberia se dependesse dela, mas ela gostava de sentir dor. Isso a excitava. E a presença daquele rapaz de cabelo bagunçado, olhos castanhos, a orelha esquerda lotada de piercings e brincos -e havia mais um na língua, ah, como pôr aquilo ali devia ter doído -fazia suas costas serem alvejadas de agulhas, fazia suas coxas serem surradas de palmadas. O namorado, que lhe contava como havia sido as últimas três semanas de faculdade e trabalhos desde que tinham saído pela última vez, perguntou se ela estava bem quando ela fechou os olhos, suspirou profundamente e relaxou, passando distraidamente uma mão entre as coxas e outra na nuca. Ela abriu os olhos como saída de um transe, e disse que fora apenas um mal-estar passageiro.
Wagner apenas sorriu e passou pelo namorado ainda preocupado – ah tão apaixonado!-, que não reparou nele.
Nos fundos, onde não havia mais lugares vagos, estava um batalhão de olhos fechados e bocas abertas, balançando e pingando baba. Uma garota, e apenas ela, estava acordada, e lia um livro chamado Loghan e Sara. Wagner ficou ao lado dela, mas ela nem reparou. Uma garota bonita. Tão interessada, tão apaixonada, que não havia espaço para ele naquela alma. Wagner não pode conter um muxoxo. Amor entre humanos era uma coisa, mas por um livro?
Ao lado da moça, um homem dormia ouvindo funk. O volume desafiava a capacidade dos fones; o que sobrava era um som chiado e sem resolução, acompanhado de uma batida monótona. A leitora assídua, apelidada por Wagner de Srta. A – não conseguia definir direito o nome dela… A… An… Ale… impossível, havia o bloqueio -, olhava para o idiota, suspirava, e voltava ao começo da página, nitidamente irritada.
A música acabou, houve uma pausa, e ela recomeçou.
A Srta. A enfiou o marcador de páginas no livro e o fechou com força. Na ilustração da capa havia um garoto de cabelo corte cuia com olhar bobo, uma garota (ou uma mulher? Difícil falar pelo corpo) segurando sua mão, um homem realmente grande atrás deles e, sobre a cabeça do garoto bobo, havia o mais notável personagem daquela capa: um pequeno, porém chamativo, duende vestido de verde, chapéu pontudo e cabelo ruivo. O desenhista tinha, no pequeno espaço que tinha, desenhado o par de olhos mais sacanas que Wagner já vira. O nome dele Wagner logo saberia:
Se eu tivesse um leprechaum… se eu tivesse o Cataespirros comigo… esse filho-da-puta estaria tão, mas TÃO na merda! -foi o que a Srta. A pensou, com tanta força que passou pelo bloqueio e ele pode ler.
Wagner abriu um largo sorriso serrilhado. Nenhum leprechaum aqui, Srta. A. Serve um demônio?
O som irritante se foi. Mas a Srta. A -e metade do ônibus – não reparou nisso primeiro. A primeira coisa que eles repararam era que o homem primeiro despertou gritando, passou desesperadamente as mãos nas orelhas, raspou até arrancar a pele, e então parou, suado, ofegante, e chorando copiosamente. Quando se acalmou um pouco, levantou-se, passou apressadamente pela Srta. A, e pediu -implorou -que o motorista abrisse a porta. Isso durou doze segundos. Durante seis, o homem gritou.
Se tivessem sido sete, ele teria morrido.
Porque o que tocou nos fones de ouvido daquele homem não fora o trecho seguinte da música que ele ouvia. Não mesmo. O que tocou foi um trecho do que era chamado de O Grito. Era o som que ouvia-se quando uma alma passava caindo, berrando, pelo quase infinito Poço do inferno. Havia dias que esse som não parava. Nesses dias, os demônios responsáveis pela tortura tiravam folga, porque seu trabalho não era mais necessário.
A Srta. A… não, Ariel Souza Dias, aluna do segundo ano do colegial, fanática por livros, doces e -ninguém sabia – futebol de botão, que não jogava com o irmão mais velho a quase um mês porque ele estava tirando férias na Inglaterra com a esposa, levantou os olhos para Wagner e agradeceu.
O demônio sentou-se ao lado dela. Usava agora uma cartola verde e com fivela, e olhos azuis profundos e sagazes. Ariel não percebeu a diferença, claro. E quando Wagner desceu, alguns pontos depois, ela o esqueceu, mas não desapareceu a sensação de que aquele Cataespirros poderia ser bem mais legal.
***
(continua… em breve, espero)
O palhaço do escritório 144
Despertador.
Sentou-se coçou os olhos abriu a janela o brilho o cegou. Levantou. Jornal saco de pão torradeira timer café requentado xícara. Torradas. Manteiga café ruim notícias ruins. Escovou os dentes vestiu camisa meias calças sapatos terno pegou chaves crachá trancou a porta. Lembrou da janela aberta, podia chover. Abriu novamente a porta, fechou a janela e saiu.
Era segunda-feira e tudo estava perfeita e rotineiramente insuportável.
O congestionamento até o trabalho que não o agrada é o que mais queimava o pavio de Ricardo. O sol batia direto na sua cara. A Rebouças não andava. Se andava dois metros, os carros de trás buzinavam. No rádio não tocava nada de útil: se era um comercial, o salário de Ricardo nunca dava co. Se é política, políticos não pegam trânsito e não sabem nada sobre. Se é música, ou é algo ruim demais ou animado demais, e ambos não ajudariam em nada.
Ricardo chega ao prédio no qual trabalha há mais anos do que gostaria de admitir. O porteiro, Seu Chico, que trabalhava ali a bem mais tempo, ele acreditava, cumprimentou-o com o costumeiro acenar de cabeça e dizendo algo que Ricardo nunca tinha entendido exatamente. Parecia uma mistura de “bom dia” ou “tudo bem”. Ah, não sabia nem se o nome do infeliz era realmente Francisco. Acenou com a cabeça de volta e não se demorou quando a cancela subiu.
O elevador demorou como sempre e mais algumas pessoas com cara de sono chegaram para esperá-lo também. Ricardo trocou acenos de cabeça com dois homens e uma mulher que chegavam de quando em quando no mesmo horário que ele. Não sabia o nome de nenhum deles; apenas que a mulher trabalhava no andar doze, num pequeno escritório de contabilidade, há uns três anos. Era linda quando começou. Agora, nem tanto.
Espremeram-se no elevador, onde a mal-humorada Julieta perguntou os andares, apesar de já saber todos. Para Ricardo, Julieta era contrada não exatamente para apertar botões, mas para fazer você pensar que sua vida não era tão ruim assim. Era, usualmente, o primeiro pensamento divertido do dia que lhe cruzava a mente.
Vários embarques e desembarques depois, em andares que Ricardo já conhecia de cor e salteado, o elevador lotado parou no quatorze. Hora de descer. Era nesse momento que Ricardo amaldiçoava a barriga que crescera um absurdo nos últimos anos. Ele e todos os outros dentro do elevador, claro, que eram esmagados e não se sentiam muito felizes. Cruzou o corredor e entrou no escritório 144.
-Bom dia, Ricardinho. -disse Amanda, como dizia todas as manhãs de segunda a sábado, detrás de seu belo balcão de recepção. Além de estar a poucos passos da obesidade, Ricardo ainda era baixo e, para completar, meio calvo. Não gostava de pensar em nada disso. Mas a forma carinhosa como Amanda dizia Ricardinho sempre fazia seus lábios esticarem para os lados.
-Boníssimo dia, Amanda. Algo para mim? -perguntou Ricardo, pousando o polegar num leitor na parede, que digitalmente “batia seu cartão”.
-Nada que não tenha chegado antes com outras datas, querido. Os assuntos são sempre os mesmos, você sabe. -disse, tirando uma pilha de cartas debaixo do balcão. -Ai, Ricardinho, precisamos urgentemente de um office boy interno. Estou ficando louca.
-Precisamos de muita coisa. Essas samambaias precisam de uma poda, também.
Havia uma samambaia de cada lado do balcão de recepção. Elas tinham crescido tanto que ameaçavam cobrir o logotipo do escritório e Amanda, também.
-Devem ter macacos aí dentro. -riu Amanda. A piada não era nova.
-Temos macacos para tudo quanto é lado aqui dentro. -riu Ricardo. Outra piada velha. Eles dois estavam ali havia muito, muito tempo. Pegou a pilha de relatórios, memorandos e outros documentos e se retirou.
Passou pelo corredor entra os cubículos baixos do departamento de programação e design CSS, do qual era o gerente. Acenou bons dias para quem se deu o trabalho de cumprimentá-lo. Jorge levantou para apertar sua mão. Bom garoto, o Jorge. Vinte anos, bonito, um currículo interessante e muito gás. Três meses de empresa e já tinha um trofeuzinho sobre sua escrivaninha. Empregado Platinum do Quadrimeste.
-Trabalhando bastante, Jorge. -comentou Ricardo, continuando andando.
-É para isso que estou aqui, Big Boss! -respondeu, abrindo um sorriso de dúzias de dentes brancos.
Ricardo enfiou a chave na porta do seu escritório, mas ela não girou. Para sua surpresa, o escritório não estava trancado. Nem vazio. Derrubou metade da sua pilha de papéis no chão.
-Opa! – disse o homem lá de dentro. Vestia um terno risca de giz muito elegante -Perdão, Ricardinho. Só estava dando uma olhada na sala da gerência.
-Tudo bem, Ricardo. Em breve é você quem estará aqui, afinal.
Enquanto Ricardo era o gordo, baixinho e careca Ricardinho, aquele era o alto, forte e bem penteado Ricardão. Pensar que o aumentativo do apelido dele vinha do seu apelido diminutivo fervia seu sangue. Se não bastasse, Ricardão parecia ser bom em cada aspecto que Ricardinho era ruim, que, ele tinha que admitir, não eram poucos. Não à toa, não demoraria muito para ele tomar seu lugar e não demoraria literalmente falando: aconteceria mudanças no staff em duas semanas e Ricardinho já tinha sido avisado que deixaria a gerência. Iria parar em outro lugar; noutro departamento, noutro escritório, ou simplesmente na sarjeta.
(continua)
Um papo com o dragão
Em uma terra muito, muito, muito distante, havia uma torre muito, muito, muito alta. E no alto da torre havia uma princesa, posta lá por uma rainha bruxa má. Uma princesa muito bela, como todas as princesas são. No andar térreo da torre havia um dragão terrível, às ordens da tal bruxa e, a caminho da torre, havia um príncipe corajoso vestido de armadura brilhante e capa vermelha, cavalgando um corcel branco.
Contudo, como a torre ficava numa terra muito, muito, muito distante, o príncipe ainda tinha uma longa distância a percorrer. A rainha tinha suas poções terríveis e um reino para se distrair, mas e a princesa e o dragão? Convenhamos que uma torre num lugar realmente distante de tudo é um lugar realmente chato.