Demônio – Piercing e Brincos


1

Era uma madrugada de outono paulistano, fria e com garoa. Passavam nas ruas poucos carros, poucos ônibus. Havia samba e pagode em bares que não fechariam antes da noite e do dinheiro acabarem. Neles, gente animada naquele estado no qual se bebe o que é líquido e está no copo.

Havia, num canto qualquer da cidade, uma boate com tubos de neón vermelho escrevendo "Hellhound" e um gorila de terno e óculos escuros na entrada, ambos silenciosos. Havia apenas o tremor surdo de música explodindo lá dentro, poderoso e convidativo. Daqueles que davam gelo no estômago de Wagner, que se preparava para entrar. Era uma das poucas boates da cidade que nunca tinha visitado e parecia promissora. Ajeitou o colete de couro preto, bagunçou o cabelo, bateu com o piercing nos dentes por brincadeira e atravessou a rua.

Deu dois tapas no ombro do segurança. Era a primeira vez que o via:

-Olá, Jorge.

Jorge, o segurança, sorriu de canto de boca e abriu o portão para ele.

Wagner deu uma piscadela para as atendentes dos caixas e para o homem que pretendia revistá-lo. Eles sorriram de volta e não fizeram nada, enquanto Wagner entrava na boate. Atravessou o lobby relativamente calmo, chegou a uma escada de metal que levava lá para baixo. Cruzou os braços sobre o corrimão e observou.

A boate fervia. Fumaça perfumada, luz estroboscópica e som ensurdecedor. Gente demais em pouco espaço – por isso era bom – dançava sob a batida pesada. Havia duas dançarinas da casa sobre as mesas e muitos gritos ao redor. Copos virados no bar, mais aos fundos. Gente rindo, gente se beijando, gente tímida mudando. Wagner sorriu e desceu as escadas, o som da música vibrando o aço sob seus coturnos.

Chamava a atenção naturalmente e de forma terrível. Goles, beijos, danças caiam para o segundo plano na mente de quem o via. Mãos alisaram seu corpo ossudo, magro a ponto de ser andrógeno, apertado numa camisa de banda justa e calças de couro coladas. Sentiu alguém arrancar fios de seu cabelo desordenado; esse alguém cheirou-o e desmaiou de prazer. Era difícil cruzar o olhar com ele e se sustentar em pé. Os lábios de todos se entreabriam, úmidos. Após sua passagem, instalava-se fundo na alma um desespero sexual que deveria ser sanado imediatamente, e ninguém tardava para fazê-lo.

Wagner sentou-se numa cadeira perto do bar. Casais afogavam o pudor em beijos embriagados. Ele piscou para a bartender, que passou um pano no balcão, tomando o cuidado para se abaixar o bastante para seu decote se tornar apenas vulgar demais. Ele disse algo que, apesar do som ter abafado completamente, ela compreendeu; ler os lábios carnudos de Wagner era fácil e irresistível.

-Surpreenda-me -foi o que ele disse.

Enquanto álcool e gelo se misturavam no shaker, Wagner puxou do bolso do colete um cigarro, que já estava aceso, apesar de nunca queimar o couro. Jogou as brasas sobre papel plastificado sobre o balcão que dizia "proibido fumar". Todos viram, mas ninguém repreendeu. Ao contrário, sentiram um ímpeto opressivo em transgredir alguma regra, infligir algum dano, cometer algum pecado, e eram o que tratavam de fazer.

Tabaco. Drogas. Urina, vômito. Álcool. Suor. Colônias, perfume de cabelo de mulher. O ar estava pesado dos melhores aromas e da batida potente das caixas de som. Wagner batia os dedos ossudos e longos do mármore branco e tragava o cigarro. Chegou seu copo largo e baixo, cheio até a boca; bebeu num gole e deixou um gelo na boca. Apagou o cigarro no gelo que sobrou no copo e levantou-se.

Perdeu-se na multidão e em suas carícias. A sensação era ótima, mas Wagner estava acostumado. Rolava calmamente o gelo na boca quente, batendo no cubo o piercing da língua. Procurava, dentre tantos humanos, alguém que lhe despertasse o apetite. Encontrou uma ruiva artificial, de olhos de safira e batom preto. Ela fumava um cigarro cuja fumaça, densa, dizia que não era do tipo que se compra na padaria. Puxou-a para um beijo e ela aceitou. Rolaram o gelo de boca para boca, lentamente, até derretê-lo. Ela arrancou sangue do lábio dele com uma mordida falsamente inocente e riu. Wagner, sorrindo, deu-lhe um tapa forte no rosto. Ela gargalhou.

Wagner saiu da boate pouco tempo depois, lambendo o lábio ferido. As caixas e o segurança ainda mantinham o mesmo sorriso perdido no rosto e não lhe cobraram nada. A festa continuou, e as pessoas nela só tinham uma vaga noção de quem -ou melhor, do quê -havia passado por elas. A sensação que realmente ficou era: o inferno é agora, é aqui, e não é assim tão ruim.

2

Poucas horas depois, Wagner despertou, nu, na cama de uma garota qualquer que havia encontrado na rua. Não precisava realmente dormir, assim como não precisava comer, beber ou transar. Mas eram coisas que lhe davam um imenso prazer e, na situação atual, pretendia curtir essas coisas o máximo que pudesse.

Para ele, elas estavam chegando ao fim.

Levantou da cama. Cruzou os dedos, e então havia um cigarro aceso entre eles. Pousou-o entre os lábios, marcados pelas dentadas da moça que agora dormia profundamente sob o edredon branco, recentemente manchado de vermelho. Vestiu-se. A camisa de banda e o colete de couro agora eram um moletom surrado, exibindo várias tonalidades de cinza e uma estampa descascada de caveira nas costas. A calça virara uma bermuda camuflada com vários bolsos. Pôs o all-star, ex-coturno, e os seis brincos que lhe enchiam a orelha esquerda. Apagou o cigarro nas costas nuas da garota adormecida: seu último presente, sua última marca. A garota gemeu de prazer. Deu uma última olhada na mobília branca, nos ursinhos de pelúcia na estante e no computador com adesivos fofinhos e sorriu. Saiu.

A família da moça estava à mesa, almoçando. A mãe ajudava as duas crianças pequenas a se servirem. O pai, um senhor de cabelos grisalhos e postura arquetipicamente austera, convidou-o a sentar-se, com um sorriso estampado. Wagner recusou com um obrigado.

-Vai recusar meu frango à parmeggiana? -disse a mãe, também uma senhora, com um jocoso tom de tristeza e um muxoxo.

-Infelizmente, sim. -disse Wagner, sorridente, enquanto lhe beijava levemente os lábios. O pai não sentiu ciúmes; no lugar, um leve estremecer de inveja, que disfarçou ajeitando os óculos -Tenho trabalho a fazer. Uma reunião com a minha chefa.

-Em pleno domingo? -assombrou-se o pai. Também queria dizer que deveria se tratar de uma desculpa, e que ele larga-se mão da timidez e se sentasse com eles à mesa.

-Pois é! Mas, fazer o quê, a gente nem sempre pode escolher o trabalho que pega. -disse Wagner, junto à porta. -Bem, obrigado pela noite!

-Não foi nada, belo. -respondeu sorridente a mãe. E então, com um pesar de ansiedade na voz -Quando voltará?

-Nunca. -respondeu Wagner, sorrindo, e saiu para a rua.

3

Era uma manhã cor-de-chumbo. O ar carregado de eletricidade e a brisa úmida previam uma boa chuva mais tarde. Ou vai fazer um puta sol, pensou Wagner, caminhando até o ponto de ônibus, com as mãos nos bolsos da bermuda . É assim que essa cidade funciona.

O ônibus que ele pegaria já estava no ponto, porque Wagner tinha suas maneiras de fazer esse tipo de coincidência acontecer. Subiu. O motorista ajeitou os óculos escuros e abriu um largo sorriso para ele. Wagner cumprimentou-o pelo nome -"Tudo certo, Teixeira?" -mesmo nunca tendo-o visto antes. Uma lágrima escorregou por debaixo dos óculos do Teixeira, depois outra. O sorriso se alargou ainda mais e ele fungou de alegria.

Havia nos assentos reservados da seção frontal do ônibus havia apenas duas senhoras, que conversavam sobre o neto de uma delas. Ele havia sofrido um acidente de moto na véspera e estava todo quebrado num hospital público qualquer. Uma conversa aquecida pelos nervos -a avó xingava o Governo a cada minuto, repetindo-se sem parar, e a outra concordava furiosamente. Quando Wagner surgiu, porém, ambas pararam. O dedo indicador que a avó agitava no ar enquanto dizia o que diria ao governador caso ficasse cara-a-cara com ele ficou petrificado. Wagner fez um cafuné no cabelo macio e branco delas e sorriu. Até a chegada do ponto de Wagner, as duas não parariam de olhar para ele, e aquele dedo indicador não sairia do lugar. A avó perderá o ponto, esquecerá do neto por dois dias, e será acusada mais pela filha de esclerosada: "Como assim, não se lembra o que te distraiu? Velha mentirosa, caduca!"

A porta fechou num resmungo pneumático e o ônibus partiu. Wagner pulou a catraca sem cerimônia alguma, nem censura por parte da cobradora -que se chamava Evanilde. Wagner cumprimentou-a, chamando-a de Eva; ela apenas sorriu e continuou a lixar as unhas. Mulher de fibra; bem mais que a original, pensou.

O ônibus estava relativamente vazio: não havia ninguém em pé, exceto por um cara pronto para descer no próximo ponto -não desceria, fascinado por Wagner – e por um rapaz de olhar abobalhado ao lado da namorada, que estava sentada e segurando duas mochilas, uma sua e uma dele. A atenção dela havia sido atraída para Wagner no momento que o all-star dele tocou o primeiro degrau do ônibus: como se um elástico tivesse acertado sua bochecha e ela, por reflexo, tivesse se virado para lá. Aliás, a dor do tal elástico era real. Ninguém sabia, nem sequer seu namorado, e nem saberia se dependesse dela, mas ela gostava de sentir dor. Isso a excitava. E a presença daquele rapaz de cabelo bagunçado, olhos castanhos, a orelha esquerda lotada de piercings e brincos -e havia mais um na língua, ah, como pôr  aquilo ali devia ter doído -fazia suas costas serem alvejadas de agulhas, fazia suas coxas serem surradas de palmadas. O namorado, que lhe contava como havia sido as últimas três semanas de faculdade e trabalhos desde que tinham saído pela última vez, perguntou se ela estava bem quando ela fechou os olhos, suspirou profundamente e relaxou, passando distraidamente uma mão entre as coxas e outra na nuca. Ela abriu os olhos como saída de um transe, e disse que fora apenas um mal-estar passageiro.

Wagner apenas sorriu e passou pelo namorado ainda preocupado, ah, tão apaixonado, que não reparou nele.

Nos fundos, onde não havia mais lugares vagos, estava um batalhão de olhos fechados e bocas abertas, balançando e pingando baba. Uma garota, e apenas ela, estava acordada, lendo um livro chamado Loghan e Sara. Wagner ficou ao lado dela, mas ela nem reparou. Uma garota bonita. Tão interessada, tão apaixonada pela leitura, que não havia espaço para ele naquela alma. Wagner não pode conter um muxoxo. Amor entre humanos era uma coisa, mas por um livro?

Ao lado da moça, um homem dormia ouvindo funk. O volume desafiava a capacidade dos fones; o que sobrava era um som chiado e sem resolução, acompanhado de uma batida monótona. A leitora assídua, apelidada por Wagner de Srta. A – não conseguia definir direito o nome dela… A… An… Ale… impossível, havia o bloqueio -, olhava para o idiota, suspirava, e voltava ao começo da página, nitidamente irritada.

A música acabou, houve uma pausa. E então, ela recomeçou.

A Srta. A enfiou o marcador de páginas no livro e o fechou com força. Na ilustração da capa havia um garoto de cabelo corte cuia com olhar bobo, uma garota (ou uma mulher? Difícil falar pelo corpo) segurando sua mão, um homem realmente grande atrás deles e, sobre a cabeça do garoto bobo, havia o mais notável personagem daquela capa: um pequeno, porém chamativo, duende vestido de verde, chapéu pontudo e cabelo ruivo. O desenhista tinha, no pequeno espaço que tinha, desenhado o par de olhos mais sacanas que Wagner já vira. O nome daquela personagem Wagner logo saberia:

Se eu tivesse um leprechaum… se eu tivesse o Cataespirros comigo… esse filho-da-puta estaria tão, mas TÃO na merda! -foi o que a Srta. A pensou, com tanta força que passou pelo bloqueio e ele pode ler.

Wagner abriu um largo sorriso serrilhado. Nenhum leprechaum aqui, Srta. A. Serve um demônio?

O som irritante se foi. Mas a  Srta. A -e metade do ônibus – não reparou nisso primeiro. A primeira coisa que eles repararam era que o homem primeiro despertou gritando, passou desesperadamente as mãos nas orelhas, raspou até arrancar a pele, e então parou, suado, ofegante, e chorando copiosamente. Quando se acalmou um pouco, levantou-se, passou apressadamente pela Srta. A, e pediu -implorou -que o motorista abrisse a porta. Isso durou doze segundos. Durante seis, o homem gritou.

Se tivessem sido sete, ele teria morrido.

Porque o que tocou nos fones de ouvido daquele homem não fora o trecho seguinte da música que ele ouvia, não mesmo. O que tocou foi um trecho do que era chamado de O Grito. Era o som que ouvia-se quando uma alma passava caindo, berrando, pelo quase infinito Poço do inferno. Em alguns dias no inferno, esse som não parava. Nesses dias, os demônios responsáveis pela tortura das almas do fundo do Poço tiravam folga, porque seu trabalho não era mais necessário.

A Srta. A… não, Ariel Souza Dias, aluna do segundo ano do colegial, fanática por livros, doces e -ninguém sabia – futebol de botão, que não jogava com o irmão mais velho a quase um mês porque ele estava tirando férias na Inglaterra com a esposa, levantou os olhos para Wagner e agradeceu.

O demônio sentou-se ao lado dela. Usava agora uma cartola verde e com fivela, e olhos azuis profundos e sagazes. Ariel não percebeu a diferença, claro. E quando Wagner desceu, alguns pontos depois, ela o esqueceu, mas não desapareceu a sensação de que Cataespirros, o leprechaum do livro, podia ser muito mais legal.

4

Como previsto, fazia sol quando Wagner desceu do ônibus: as nuvens de chuva tinham sido jogadas para o horizonte. O sol era morno, agradável, e corria uma brisa suave pelas canelas desnudas do demônio e pelas grandes copas das árvores do Ibirapuera. Ele tirou o moletom com estampa de caveira, virou-o do avesso e colocou a camisa regata vermelha-sangue na qual ele se tornara. Pousou uma boina da mesma cor na cabeça, com a frase "penso, logo desisto" escrita de caneta de feltro, junto de um smiley com a língua para fora.

Passou pela estátua de bronze de Pedro Álvares Cabral, que estava sempre de braços abertos para as barraquinhas de hot-dog na entrada do parque. Havia alguns jovens deitados nas ondas de cimento que forravam o chão dali, uns acariciando distraídamente a barriga de um outro. Duas moças olhavam o movimento suave da superfície do lago do parque, a menor com a cabeça deitada no ombro da maior, o cabelo de seda escorrendo nas costas nuas da outra, que tinha um piercing na nuca. Nenhum deles reparou em Wagner; o parque tinha um charme inabalável. E não é exatamente por isso que nos encontramos sempre aqui? pensou o demônio de piercing e brincos.

O dito encontro ocorreu após alguns minutos. Sentada numa cadeira de balanço, olhando para a Oca, estava a Velha. Vestia -ou melhor, usava sobre o corpo – um sem-número de trapos de cores diferentes, nenhum originalmente da mesma cor, todos agora cobertos por sujeira que os tornavam opacos e cinzas de apenas tons díspares. No rosto sombrio e queimado haviam cânions, os olhos imersos em pele gasta.  Jogava pipoca doce de saquinho rosa para os pombos, que bicavam retardadamente os pedaços industrializados de açúcar e os jogavam para longe, só para irem atrás novamente.

Wagner chutou um deles com tanta força que ele se transformou numa nuvem de penas e sangue; os outros sairam voando de medo. Pombos o enojavam. Abriu um largo sorriso para a Velha.

-Que nem biscoito. Mata um, vem dezoito.

-Costumam dizer a mesma coisa dos íncubos no inferno, Wagner. -disse a Velha, numa voz rouca, mas surpreendentemente lúcida. E jocosa.

Wagner apenas alargou o sorriso. Pôs a mão na boca e tossiu com força, uma vez. Então, havia um cigarro aceso entre os dedos.

-Quer um? Eu tusso um para você.

-Cem anos se passaram e você é o mesmo idiota de quando nos conhecemos. Não merece o lugar que ganhou do Rei.

Os pombos retornaram ao chão sem grama do parquinho, esperando mais pipoca.

-Então você vai ser ingrata? -disse Wagner, soltando a fumaça pelo nariz. -Eu fui o incubo que mais pôs marcas no seu caderninho preto. Duas marcas por alma, no mínimo. Não me venha com essa frieza, porque eu sei que você me ama.

A Velha soltou uma sonora gargalhada, que vibrava com o ranho viscoso no fundo daquela garganta de mil anos.

-Amo! Amo de paixão, seu diabrete magrelo e mal resolvido! -ainda gargalhava -E estou de coração partido com a sua partida. Oh, como eu rezo para o próximo saber tossir cigarros para mim.

Wagner também gargalhou, menos por diversão e mais por costume. Os pombos estavam bicando seu all-star para tentar pegar a pipoca debaixo da sola. A brisa ficou mais intensa, virou vento de verdade. Um rapaz caiu de skate na Marquise, bateu o cotovelo. Para mais perto da Oca, um grupo de estudantes de um colégio técnico jogava rugby. Ninguém reparava nos dois demônios ali, um milenar, outro completando 100 anos.

-Depois de amanhã, Wagner. Parecia que nunca ia chegar, mas está chegando.

-Pois é. -Wagner soltou demoradamente a fumaça fina. -Acho que não vamos nos ver novamente.

-Se tudo der certo, não mesmo. – a Velha riu. -Não estou nisso há tempo demais para ir parar no mesmo buraco que você. Apesar de você merecer bem menos. Sexagésimo sétimo andar, não é mesmo? O Grito é bem agradável dali.

Silêncio, que se manteve até o cigarro de Wagner acabar. Jogou a gimba ainda acesa do cigarro num pombo gordo de pata quebrada.

-Foi bom trabalhar com você. -disse, e depois de uma pausa. -Você tem algo que me pertence.

A Velha tirou da manga do bolo de trapos um papel estranhamente bem-cuidado. Wagner pegou com cuidado. Era um bilhete de papel couchè, envernizado, cor de creme, com moldura dourada, símbolos de ângulos impossíveis, e um furo de perímetro queimado que não parava de soltar fumaça. Em marca d’água, estava a data: 6/6/6. Seis de junho de 2006. Dali a dois dias, uma terça-feira.

Wagner tirou a boina para a Velha, girou nos calcanhares e foi explorar o Ibirapuera.

A Velha remoeu o sentimento odioso que o contato com os humanos tinha infundido em seu modus operandi, essa tal de tristeza. O sentimento, como tudo que é humano, passou. Horas depois, quando o sol já tinha se posto, o tempo ficava mais frio e o parque, mais vazio, ela se levantou e sumiu, levando os pombos consigo de volta para o inferno.

5

Uma hora após a conversa com a Velha, o céu estava nublado novamente, desta vez para valer. Em intervalos cada vez mais curtos era possível ouvir um trovão, ver um relâmpago iluminar as bordas das nuvens densas.

Wagner havia dado uma longa volta, seguindo os caminhos da ciclovia. Os transeuntes agora se preparavam para deixar o parque. Durante a uma hora que o passeio durou, apenas meia dúzia de moças e rapazes havia reparado nele, e apenas pela sua aparência, não pelo seu dom demoníaco. Wagner já esperava por isso. Era sempre assim no Parque Ibirapuera. Havia algo naquele lugar; uma energia que saia das raízes, da grama úmida, dos gritos das crianças nos balanços, nos peixes e patos do lago, das obras de arte nos museus. Algo que chamava a atenção dele mais que tudo, uma sensação de novidade eterna e familiaridade que não tinha explicação.

Passava agora pela margem do lago, próximo da ponte de metal. A tinta verde que um dia a cobrira agora estava toda descascada e o metal exposto havia enferrujado. Cada passo sobre a ponte parecia o último que ela suportaria. Mesmo assim, ninguém parecia se importar: crianças passavam pulando por ela e várias pessoas permaneciam ali, olhando do parapeito os peixes se amontoando sobre pedaços de comida que lhes eram atirados.

Uma dessas pessoas era um cara alto, de chapéu e sobretudo bege, segurando uma bela pasta de couro legítimo em uma das mãos grandes. Os ombros eram largos, imponentes. Havia sob o chapéu uma face obscurecida pela sombra, com uma barba grisalha e óculos redondos. Puxava fumaça de um charuto. Pegou-o com dois dedos, tirou-o delicadamente da boca e soltou a fumaça densa pelo nariz. Observava Wagner e Wagner sabia; era algo que se sentia, um calafrio enrijecendo a pele. Quando Wagner olhou para ele de volta, ele ergueu o charuto como se fosse um brinde. Wagner tirou a boina para ele, sorrindo.

E ficou sério. Algo estava errado.

Um grande trovão explodiu atrás das nuvens, o vento ficou mais forte e mais úmido. O mundo estava ficando cada vez mais cinza.

6

Wagner havia subido em uma árvore e tirado um cochilo. Acordou com uma voz feminina, distante. Já passava das sete e meia da noite e o parque estava mergulhado no breu.

Desceu da árvore e seguiu a voz, pisoteando grama murcha. Garoava. Por entre as árvores, havia uma moça reclamando com um guarda. Ele estava com a lanterna acesa, apontada direto para os olhos dela. As ondas do cabelo loiro, fino e volumoso, brilhavam.

-Você se excita cegando garotas ou o quê? -disse ela.

-Não complique as coisas, ok? -disse o guarda, passando a mão pela testa. Bufou. -Vá andando.

Ela usava um bata branca, um colar de miçangas, uma calça tipo cigana. A umidade havia grudado as roupas no corpo dela. Os braços cruzados, o jeito que estava apoiada em uma perna só e o nariz empinado dava-lhe um quê infantil. Wagner estava sorrindo, sem notar.

Um círculo de luz se formou sobre ele. Wagner girou, caindo de bunda na grama molhada.

-Se quiser ver mulheres, posso te emprestar uma revista, garoto. -disse um segundo guarda, surgido do nada detrás dele. Ria. O sangue de Wagner foi todo para a cabeça. – O parque está para fechar. É melhor você ir indo embora também.

Wagner ergueu o lábio superior, como se fosse dizer algo, mas desistiu. Às vezes, esquecia-se do efeito anulador que o Parque tinha sobre sua influência infernal; apenas suspirou e levantou-se. Ajeitou o cachecol vermelho no pescoço -pois agora estava de cachecol – e deu uma última olhada na garota. O guarda havia percebido que jogar luz nos olhos dela não adiantava em nada e tomara uma postura um bocado mais agressiva: puxava-a pelo braço, pareciam ser um pai e sua filha mimada. Wagner, contudo, era um íncubo, e podia sentir a lascívia por detrás da ação do homem. Sorriu.

O guarda mais próximo dele deu duas batidas em sua cabeça com a lanterna, dolorosas; “eu ainda estou aqui, lembra?”, era o que diziam. Wagner não deu ao guarda a chance de fazer mais alguma piada com ele: pôs as mãos nos bolsos e desceu o declive suave, rumo a margem do rio.

-Ei, espere por mim!

A voz era firme e sensual. Era a loira, vindo até ele. Ele esperou-a com a mão nos bolsos. Ela chegou e abraçou seu braço. Disse baixinho, em sua orelha:

-Expulsos de um parque público. A humilhação final.

Wagner abriu um sorriso. Começaram a andar juntos.

-Esse parque é uma droga. -ela disse. -Em qualquer outro lugar, você tem todo mundo aos seus pés. Aqui, você é um merdinha que não pode nem ficar depois das oito. – ela ergueu o indicador e o médio em frente aos lábios de gloss rosa claro e soprou. Uma fumaça densa saiu da boca e passou pelos dedos… e quando ela se dissipou, um cigarro terminava de se solidificar entre eles. Acendeu-se sozinho. Ela tragou longamente. -Ao menos, os poderes continuam. – Soltou a fumaça e ofereceu o cigarro a Wagner.

-Não, relaxe. Eu já tenho o meu. – disse ele, tirando um beck aceso da orelha. -Não nos conhecemos, ou conhecemos?

-Não, mas isso muda agora. Raquel. E você?

-Wagner. -disse entre anéis de fumaça.

-Wagner? Já tive uma quedinha por alemães. Pena que você não tem olhos claros.

-Fora daqui, posso ter.

Luz.

-Apertem esse passo, pombinhos! -disse o guarda que estava expulsando Raquel. O outro, que assustara Wagner, não segurou o riso.

Raquel rolou os olhos para cima.

-Então vamos embora logo. Você conhece algum lugar melhor que isso aqui, certo?

7

-Costumo vir aqui com alguns amigos meus. -disse Wagner. -Colegas de profissão, na verdade. Aliás, vamos nos encontrar hoje mais tarde. Aproveite que está por aqui e…

-Não, não vai rolar. –cortou Raquel, apagando uma ponta num cinzeiro. Já era a quarta. -Não moro muito longe daqui. Daqui a pouco vou nessa.

Chovia pesadamente do lado de fora do bar. Os carros eram apenas barulho e luzes trêmulas passando pela Rua da Consolação. Havia no ar cheiro de chopp, óleo de fritura, madeira nobre e gente. Um burburinho incessante de conversas mescladas. As lâmpadas de mercúrio enchiam o lugar de luz laranja, deixando-o quente e aconchegante.

-Mora? -perguntou Wagner, erguendo uma sobrancelha. -Pensei que fosse do tipo sem casa.

Raquel abriu um largo sorriso. Havia trocado seus trajes de bicho grilo por um suéter, boina e calça jeans brancos, e um cachecol azul; o mesmo que Wagner, mas com as cores invertidas. O gloss rosa-claro sobre os lábios permanecia.

-Não é só porque eu rodei o mundo que eu não posso gostar de ter uma casa. Sabe… prefiro trazer minhas presas para minha toca. -disse, piscando um olho distraidamente. Bebeu um longo gole do chopp.

-Eu prefiro deixar a sujeira para o dono da casa resolver. Opa, obrigado, amizade. – o garçom chegou com coxinhas e um escondidinho. Soltou uma lágrima ao ouvir a voz de Wagner sendo dirigida a ele. Retirou-se fingindo ser profissionalmente reservado. Wagner e Raquel repararam e riram um para o outro.

-Depois de um Ibirapuera, ser demônio fica muito mais agradável. -disse Raquel.

-Pois é. Por que ainda vamos naquela porra de lugar? -Wagner encheu a boca com uma colherada do escondidinho.

-Sei lá… -disse Raquel, dando ao assunto alguma reflexão, girando o chopp no copo. -Acho que é pelo desafio. "Eu não preciso dos poderes, fodam-se eles", ou "Desta vez, eu vou conseguir agir dentro do Ibirapuera". O que nunca dá certo. Se bobear, tentamos justamente para fracassar. Perder tem um gosto estranho, encantador de vez em quando.

-Quebrar a rotina. -disse Wagner, demoradamente. – Talvez seja isso.

-É, talvez seja isso. -e bebeu o resto do chopp.

Wagner passou os dedos pela borda do seu copo, pensativo. Quebrar a rotina? Queria quebrar a rotina? Em pouco mais de 24 horas, sua rotina não ia ser quebrada: estraçalhada era a palavra. Podia sentir o calor do bilhete pulsando em sua coxa direita, onde estava o bolso que o comportava. Desceu a mão lentamente para ele, alheio aos carros na rua, ao tilintar do vidro das garrafas nos copos, de uma doce voz de mulher dizendo:

-Wagner! -e o demônio saiu do torpor num salto. -Porra, comeu escondidinho pelo ouvido, babaca?

Ele a olhou assustado, mas ambos acabaram rindo. Ela estendeu a mão sobre a mesa e pegou na dele, a que restava sobre o copo. Os dedos se entrelaçaram.

-Relaxa. A gente vai ter muito o que fazer por lá.

-Do que está falando?

Ela tirou a mão da mão dele: sobre a palma do demônio havia um outro bilhete, em outro nome. O bilhete tinha o furo que sempre soltava fumaça, com as bordas sempre em brasa. Raquel então tirou o bilhete das mãos dele. Estava um pouco ofegante. Ela guardou no bolso dela e suspirou. Pôs as mãos sobre a mesa. Não conseguiu aguentar três segundos antes de verificar se o bilhete estava realmente ali.

-É meio Senhor dos Anéis, né? Essa coisa com o bilhete.

-Gollum, Gollum! – Wagner imitou a tosse rouca da personagem. Raquel deu uma alta gargalhada. O casal na outra mesa começou a se acariciar. Wagner entornou o líquido do seu copo.

A conversa dos dois durou mais algumas horas. Os cachecóis e boinas já tinham desaparecido. Quando a chuva ficou mais fina, Raquel tirou o celular da bolsa e ligou para alguém. Era pouco além da meia noite. Os amigos de Wagner tinham se combinado a uma hora.

-Você poderia ficar. -disse ele.

-Não, não. Melhor você e sua turminha aproveitarem a noite a sós. Devem ter muito o que se falar.

-Eles entenderiam se a gente sumisse.

-Aposto que sim.

Houve uma buzina e o ronco de motor de moto do lado de fora. Raquel não precisou sequer olhar para saber que era sua carona.

-Onde essa porra de moto estava? Na esquina? –disse Wagner, meio levantando, olhando para fora.

-Claro. –disse ela, com um olhar arrogante que dizia “estou sempre preparada”. -Tenha uma boa noite, Alemão.

Ela se levantou. Antes que desse o segundo passo, Wagner havia levantado de todo e segurado seu pulso.

-Pelo menos deixe eu terminar o que aqueles guardas não deixaram.

Ela girou o corpo para ele, deu dois tapinhas no rosto dele com a mão livre e sorriu. Seu rosto era muito delicado, o sorriso era franco, e os olhos, felinos. Mesmo o suéter grosso não ocultava a bela curva dos seios. A pele dela vibrava de energia e maciez. Chegou rente ao sua orelha cheia de piercings e disse:

-Eu ainda vou brincar mais um pouco com você, garanhão. Sabe onde me encontrar.

E saiu, deixando-o sorrindo com a mão nos bolsos. O motoqueiro tirou o capacete: cabelo médio, barba cheia, queixo quadrado. Forte por debaixo das roupas de couro. Beijou-a intensamente. Ela mandou-o ir para a garupa e ele foi. Firmou as mãos ao redor da cintura dela, a virilha nos quadris, e eles partiram, a Harley berrando para a rua quem mandava em quem.

8

Não muito mais tarde, os amigos de Wagner chegaram.

“Amigos” era uma palavra forte demais, e Wagner sabia disso. Contudo, o termo que usara para descrevê-los para Raquel –colegas de trabalho – também não era verdadeiro, pois era fraco demais. O fato era que Wagner tinha passado bons momentos com aqueles três demônios, mesmo os que quase o fizeram voltar para o Inferno mais cedo.

Um demônio não é dado a memórias. Seus dias passam rápido pela mente, pois seus dias são dias de trabalho rotineiro, e acabam se misturando, se diluindo, até que uma década não possa mais ser decantada em anos, meio século em décadas. Contudo, quando um outro demônio aparece, algumas coisas dignas de um espaço na memória acontecem.

Julian. Douglas. Celia. A mente de Wagner mergulhou no passado.

9

No ano de 1921, Wagner estava em lugar onde se não estava.

Lá na superfície, uns bons 5 metros acima da cabeça de Wagner, o mundo pegava gosto de fumaça e sangue. Há pouco mais de duas décadas, ele havia surgido naquele mundo para corromper. Conseguira sussurrar palavras doces em alguns ouvidos e sujado algumas almas, mas logo percebeu que sua mancha era apenas a última necessária; as almas já vinham encardidas de fábrica –literalmente, naqueles casos. Perguntava-se se ainda havia algo a ser corrompido.

Um demônio pode ser definido de forma bem simples, apesar de seu entendimento ser complexo: um demônio é uma faceta, um representante de um ideal de uma entidade maior, uma idéia superior, um deus. Wagner existia para corromper almas humanas e engordar o reino lá de baixo, mas pelo que via, o Inferno era ali. Então, o que lhe sobrava para fazer?

-Fizeram meu trabalho. –disse para o homem atrás do balcão. Tanto o homem quanto o balcão pareciam mais velhos que Satã. –Fizeram meu trabalho. –repetiu. –O que eu tenho a fazer agora?

-Faça nada. –disse o homem. –Faça nada aqui, onde se não está.

O homem abriu os braços em arco, mostrando o lugar. Era uma espécie de bar subterrâneo, tirando o fato de que não parecia um bar. Havia colagens de fragmentos úmidos de jornais pelas paredes, mesclando anúncios de cosméticos com chamados gringos para o Exército, inventando um Marcel Tzara e um Tristan Duchamp. Havia um grupo de pessoas sentadas na mesa, com cadeiras no colo. Um outro discutia fervorosamente como não falar nada calmamente. Wagner não sabia porque gostava tanto daquele lugar, porque era um lugar absurdo e chato, contrário ao seu propósito na Terra… mas, segundo o que parecia ser a filosofia dali, era exatamente por isso que gostava dali. No lugar que não era, paradoxos eram lei.

Ou não.

Não fazia idéia de há quanto tempo estava ali. Não conseguia prestar atenção em detalhes o bastante para sentir os minutos. O homem parecia estar sempre perto dele, de pé, com um ombro sobre o balcão. Os anúncios sempre com o mesmo bolor. A cerveja, sempre no copo.

Foi então que um gigante pôs os pés no lugar que não existia.

Era enorme: um colosso de pele negra, vestido em camisa amarelada de suor, calças pretas presas por suspensórios xadrez, sapatos bem engraxados. O corpo explodia em músculos. Ele passou os olhos pelo cômodo e encontrou Wagner, que mantinha-se virado para o balcão. Caminhou até ele.

O demônio sentia uma tensão correr-lhe as costas. Mantinha com esforço os olhos no seu copo. Passava a língua pelos dentes, sentindo a dupla pressão dos ossos contra o músculo, do músculo contra os ossos. Os pés se agitaram. Alguma coisa estava acontecendo. Alguma coisa estava finalmente acontecendo.

O gigante pegou sua cabeça e enterrou-a no balcão.

O rosto do demônio sumiu por entre as farpas da madeira e os cacos do copo. Quando o gigante puxou a cabeça de volta, colunas fluidas de sangue entre o que sobrara do balcão e o que restara da cara de Wagner, que arfou de dor. Mas sorria.

Um inferno de sorriso.

-Você faz idéia do porquê está apanhando, Wagner? –trovejou o gigante.

-Nenhuminha. –sorriso.

O gigante levantou Wagner –mole como um boneco de pano – e sentou-o na cadeira ao lado. Afundou a cabeça dele novamente no balcão.

-Você faz idéia do porquê está apanhando, Wagner? –novamente.

-Faço. Mas não te conto. –sorriso.

Um terceiro buraco oval no balcão.

-Você faz idéia do porquê está apanhando, Wagner?!

-Sabe, você realmente não presta para esse serviço.

Quarta. Acabara o balcão.

-Não vou perguntar novamente. Essa é sua última chance.

-Ok, vou responder, vou responder! –irônico, e com aquele sorriso.

O homenzarrão soltou sua cabeça e deu um passo para trás. Wagner subiu em uma cadeira, para ficar da mesma altura que ele. O sangue em seu rosto estava coagulando, formando uma máscara vermelha e viscosa. Estava ali de propósito, pois Wagner poderia mudar seu rosto quando bem entendesse. A decadente alegria que sentia era quase um orgasmo.

-Você é um daqueles caras feitos para nos manter andando na linha, ó grande cara grande. –disse Wagner. –E eu não tenho andado exatamente na linha, não é? Não tenho corrompido almas por aí, não é? Não tenho ajudado muito o papai Satã, não é? E você veio para me destruir.

-Exato. –disse o gigante. –Suas últimas palavras?

Wagner alargou ainda mais o sorriso.

-Tenho. Você realmente não presta para esse serviço… –e disse algo que ouvidos humanos não compreenderiam.

O gigante recuou mais um passo, estreitou os olhos para Wagner.

-Ah! Sua mente, transparente como álcool! Ah, tão ridículo!

Mais um passo para trás. O suor fazia a pele negra reluzir. Mais manchas de umidade se formavam na camisa gasta.

-Você também não suportou a verdade, não é, …? –de novo, aquela palavra inumana, aquela anti-palavra –Não suportou ser um íncubo nesses tempos, não é? E resolveu fazer um bico como caçador. Ha! Meigo, meigo, meigo!

O gigante deu um passo para frente, mas estacou. Seus olhos de escleras amareladas vibravam nas órbitas. Olhava intensamente para Wagner, e sentia ódio do olhar firme do outro. Firme, irônico, poderoso, e –diabos, como eram – sensuais. O gigante caiu de joelhos.

Um demônio que existe para corromper almas humanas vem à Terra com poderes serventes ao seu propósito. Ele pode ler desejos. Ele pode ler passados. Ele pode ler sonhos. E ser um pouco de cada um, para que a pessoa, de corpo e alma moles, faça direitinho o que o demônio quer que ela faça. Mas um demônio não pode ler outro.

A não ser que o outro seja fraco. Ah… esses um demônio pode ler até o Nome.

Wagner:

-São tempos difíceis, … –de novo a palavra. –Mas, hey, corromper é bom demais. Obrigado por ter me lembrado da sensação.

-O mundo já está completamente corrompido. –murmurou o gigante.

-Foda-se. Então eu vou corromper a corrupção.

Wagner subia as escadas rumo à superfície. O gigante então chamou-o, ainda de joelhos:

-Meu Nome. –na escada, Wagner ergeu uma sobrancelha, sorrindo arrogante. –Só esqueça meu Nome.

-Relaxe, grandalhão. Nada acontece num lugar que não existe.

10

O gigante que sentava à mesa do bar, 85 anos depois, se chamava Julian. Usava um terno caro, sob medida, e anéis da grossura de pulseiras nos dedos. Cinto de fivela de platina. Por algum motivo que estava abaixo de seu entendimento, mantivera a forma inchada, mas seus métodos se tornaram bem sutis ao longo dos anos; aprendera os vícios dos ricos donos de corporações. E aprendera que o maior vício deles é da propriedade mágica que o dinheiro tem de ser infinitamente acumulativo.

Colocou a maleta de couro de crocodilo no chão. Dentro dela, meio fígado. A outra metade estava dentro de um bilionário que estava convencido que poderia ficar trilhardário vendendo metades do único órgão do corpo humano que consegue regenerar 50% de sua estrutura. Morreria gargalhando e gorfando vermelho em seu escritório, manchando um Rembrandt, em menos de uma hora.

Na verdade, 58 minutos e 13 segundos; é o que dizia o Jean Dunand no pulso de Julian.

11

Wagner andava de mãos nos bolsos por entre as árvores do gostoso bairro de Pinheiros, num dia quente e brilhante dos anos 80. As casas tinham quintais largos, as ruas eram espaçosas e com pouco movimento. A brisa soprava, balançando devagar as copas bem verdes de verão. Havia beleza simples na monotonia diurna do bairro e, ao longo das décadas, Wagner foi aprendendo a gostar disso. Era como o descanso após a farra, a cura para a ressaca. Que nunca havia, claro, porque demônios não ficavam nem sequer bêbados, ou chapados.

A não ser que quisessem.

Sentados nos degraus da entrada de um colégio grande estava meia dúzia de jovens, talvez dez. Riam, falavam alto. Um levantou de repente, para dar mais impacto a uma piada, e acabou trombando com um rapaz de cabelo rebelde e muitos piercings na orelha.

-Porra, bicho, desculpa aí. –disse o desastrado, com uma voz muito mole, quase ininteligível por causa da desafinação característica da idade. –Eu tava só com meus chapas aqui fal…

-Sem problemas, bicho. –respondeu o demônio.

Teria dito isso mesmo se o rapaz tivesse chingado sua mãe -como se Wagner tivesse uma- , pois prestava atenção em outra coisa: num garoto de olhar fosco e camisa folgada com um cigarro na boca, que sorria abobalhado para ele. Fora daquele lugar amedrontador e fascinante chamado Parque Ibirapuera, era fácil reconhecer um outro demônio.

-Senta com a gente, carai. –disse o outro. –Senta num cigarro, acende um degrau com a gente.

Wagner ergueu as sobrancelhas, mas acabou achando graça. A tarde seguiu com uma volta pelo bairro, uma passada no bar, duas garrafas de destilado esvaziadas, e uma bonita visão do crepúsculo da Praça Pôr-do-sol. Os outros jovens estavam bêbados e sonolentos, quase dormindo na grama. Wagner estava sentado, abraçado aos joelhos, ao lado de seu mais novo colega de profissão, que perguntou:

-Por que você não pirou com a gente?

-Como?

-Pirar, saca? Por que não ficou doidão, enfiou o pé na jaca, chapou o coco, se embebedou. –a voz ia ficando mais mole, o sorriso se alargando. -O que preferir. Eu prefiro ficar tudo isso juuuuuun-tão. –e se jogou de costas na grama. As mangas longas da camisa sobravam além das mãos. Faziam com que ele parecesse uma criança. Ou um louco numa camisa de força.

-Porque é ridículo. Qual a graça?

-Ah, qual é. –sentado de novo. –Você nunca deve ter experimentado.

Nunca havia. Íncubos já conhecem as fraquezas humanas no momento que se levantam de seus nada delicados berços infernais e claro que Wagner sabia da quedinha das pessoas por alucinógenos, mas um demônio não precisava partilhar da experiência para levar suas vítimas a experimentar, não é? Diziam que em casa de ferreiro, espeto era de pau. As presas do íncubo poderiam ficar entupidas de drogas até a última sinapse, mas nenhuma substância fazia efeito direto no corpo profano dele. Provavelmente porque um demônio não tinha exatamente um corpo. Estavam mais para uma existência, uma presença que se sente às vezes te espiando pelas costas, ou algo que você nota com os cantos dos olhos. Mas vale lembrar que apesar das alterações bioquímicas que uma boa tragada causa num cérebro humano, a piração é toda psicológica. E homens e demônios compartilham o mesmo plano das idéias.

-Que tal experimentar hoje, guri? –perguntou para Wagner. –Vamos lá. Só se vive na Terra uma vez, e eu aposto que não vai ter nada disso no inferno. Aproveite que não tem nenhum caçador por essas bandas hoje, eles tiram folga às sextas.

Caçadores, demônios que botavam outros na linha –principalmente os saidinhos dos íncubos e súcubos –nunca saíam de folga, claro. Wagner olhou para o outro lado.

-Olha, bicho… –começou Douglas – que tal usar a palavrinha mágica?

-Por favor? –Wagner riu.

-Não. Foda-se. É bem prática, não acha?

Wagner estava gostando demais daquele mundo para querer voltar prematuramente para o inferno, pelas garras de um filho da puta de um caçador. Por isso disse:

-Meio perigosa, na verdade.

-Foda-se! –o demônio então caiu uma crise de riso sem limites. Por minutos. Wagner levantou-se para ir embora, mas ele segurou seu pé e quase o derrubou. –Ah, vamos lá. Não vai ficar brabinho comigo, vai? –beicinho. Jogou uma garrafa de Gin para Wagner, recém-evocada –Pira logo, feito macho!

-Que tal enfiar a garrafa na bunda? –Wagner disse, formando um anel com o polegar e o médio e passando o gargalo por ele.

-Olha, cara, eu não sei se você curte essas coisas, mas se eu fosse você, eu bebia por cima, saca? –sorriso pateta.

Wagner fechou os olhos e suspirou. O pior é que o otário tinha sua graça. Atirou a garrafa de volta ao outro.

-Talvez amanhã, quem sabe.

-Ok, estamos marcados.

-Eu disse “quem sabe”.

-Eu sei, não sou surdo. Pode ficar tranquilo, estaremos lá. –apontou para si, e para a garrafa.

O íncubo foi embora, balançando a cabeça.

No outro dia, não conseguiu evitar a tentação e ir até o colégio, em cujos degraus encontrara a figura rara. Carregava no peito uma sensação, uma mistura inusitada de curiosidade e raiva, temor e fascinação, orgulho e morbidez. Algo semelhante ao que o fazia botar os pés no Ibirapuera. Era meio-dia, e o colégio fervilhava de gente em grupos e grupos. Aproximou-se de uma garota e beijou-a.

-Você sabe onde posso encontrar um cara assim? –outro beijo.

A garota lambeu o lábio, absorvendo as informações.

-Olha… desse jeito, deve ser o Rick.

-De quem estão falando? –perguntou uma das amigas da primeira.

As duas trocaram um selinho rápido.

-Que Rick o quê, sua retartada. É o Douglas, com certeza.

Assim que ouviu o nome, Wagner sentiu um comichão; um arrepio na espinha que sentia quando as coisas se aproximavam da verdade. Intuição demoníaca, talvez. Agradeceu as duas com um carinho no cabelo e entrou pelo portão de ferro.

O colégio tinha um vasto pátio, ladeado por uma série de bancos de cimento. Uma escada a sua esquerda levava ao segundo andar, onde ficavam as salas de aula, segundo o que a saliva da garota que beijara lhe dizia. Wagner viria a ficar muito melhor na habilidade de ler mentes humanas, mas isso exigiria ainda outro encontro fortuito, que aconteceria apenas anos depois.

E o encontrou encostado nas grades da quadra poliesportiva, logo além do pátio. Haviam árvores de sombras largas, e Douglas estava sentado sob uma delas, no colo de uma garota que acariciava seu cabelo parte ondulado, parte liso, parte sabe-se-lá-o-quê, cor indefinida. Douglas sentou, ao perceber a chegada de Wagner, e de uma mão antes vazia surgiu a mesma garrafa de Gin.

-Nós sabíamos que você viria. –levantou e deu um abraço no outro demônio. Por reflexo, Wagner devolveu. –Na verdade, a garrafa teve uns momentos de fraqueza, mas eu permaneci resoluto.

Douglas abriu a garrafa e encheu sua boca com o líquido. A garrafa murmurou o som doce que destilados fazem. Bebeu tudo de um gole só, fez uma careta. E bateu continência.

-Sargento Douglas informando torre de comando que seu pelotão oficialmente partiu!

Wagner pegou o Gin e bateu continência para Douglas, de maneira menos afetada.

-Aguarde, Sargento. Reforços estão a caminho.

12

-Seus marujos lambedores de bosta de krill, tragam-me aquele camarão! Seu capitão está com fome, muita fome, e se não houver camarão na barriga dele agora, não haverá mais nada na barriga de vocês, NUNCA MAIS!

Douglas estava sobre uma das cadeiras do bar, um pé apoiado no encosto. Apontava para os garçons que, dando risada, corriam como palhaços num picadeiro, trombando-se propositalmente e correndo para a cozinha buscar o camarão frito do cliente. As outras pessoas do bar riam muito e batiam palmas, sem estranhar em nada a noite incomum no bar, ou como já havia passado horas do horário de fechamento do local.

Wagner ria do amigo com um cigarro na mão e uma cerveja na outra. Talvez fosse uma noite para algo mais pesado; afinal, era uma das últimas.

13

O último encontro de Wagner com um demônio aconteceu depois da virada do milênio. Havia no ar uma sensação de nova chance e de liberdade, e os corações estavam soltos. A taça do mundo era nossa pela quinta vez, e ser verde e amarelo dava orgulho: um país de toda cor, raça de toda fé, guitarras de rock’n’roll e batuques de candomblé.

Falando em guitarras: Wagner nunca tinha visto alguém tocar uma guitarra como aquela mulher. Ela usava maquiagem pesada, quase uma máscara a là Kiss, um charuto mordido na boca, e gorda como um balão. Os dedos sumiam de rapidez. Os clientes do bar subterrâneo batucavam na mesa na batida da bateria, balançavam a cabeça no ritmo das cordas, acompanhavam mudas a letra.

Quando a música acabou, houve palmas e a banda se desmanchou, liberando o palco para outras pessoas. Mais quatro vieram, desconhecidos entre si, de mesas distintas. Conversavam um pouco e tocavam, e as músicas saíam milagrosamente bem.

Era magia, claro. Magia do demônio.

-O rock é do demônio, afinal. –disse a guitarrista para Wagner. Havia sentado na mesma mesa que ele.

-Como?

-Eu disse que rock é do demônio. Como você tinha pensado.

Lentamente, o sorriso do íncubo foi alargando-se. Quem era ela? Se a leitura de mente foi real, então era simplesmente a pessoa mais poderosa que Wagner já tinha encontrado na vida. Ler mentes era uma capacidade de todo bom íncubo ou súcubo: não se pode tentar alguém sem saber o que a tenta. Contudo, ler a mente de um demônio é completamente diferente. O comportamento semelhante ao humano que se nota nos demônios do prazer e pecado é apenas simulação. Ou será que não? Dizem que o hábito não faz o monge, mas há monge que não o use? Alguns costumes e manias mudam a criatura.

E, para Wagner, eram costumes de 90 anos de vida.

-Quem é você? – Wagner perguntou.

-É aí que você tem um problema. –disse a gorda, apontando-lhe uma arma formada pelo indicador e o polegar. –Porque eu já sei quem você é. Bang!

-E eu suponho que você tenha descoberto lendo minha mente.

-Na verdade, é mais sutil que isso. Não é muito diferente de… deduzir algo. Como você acabou de fazer! –ela jogou seu charuto velho fora e pegou outro em pleno ar, criado a partir do nada. –É só uma outra abordagem.

-Abordagem? –Wagner bebeu sua cerveja.

-Sabia que ia perguntar isso.

Wagner soltou um rosnado de raiva. Pegou uma garrafa de cerveja e começou a reencher seu copo.

-Se sabe de tudo previamente, então não vou precisar me dar o trabalho de te mostrar o dedo, certo? Vá tentar impressionar outro otário, cigana heavy metal.

A mulher deu uma gargalhada pirrarrenta e sorveu a fumaça pesada do charuto. Era muito perfumado de mel, e Wagner quis um. Ela soltava a fumaça em lufadas enquanto falava:

-Ei, não precisa ficar bravo. Não estou aqui para te aporrinhar, mas para te ensinar um truque ou dois.

-Imagino que tenha lido minha trajetória na Terra também e ficado com dó. É isso, cigana heavy metal?

-Já disse que não leio nada. Quer aprender ou não?

-Então é pelo mero prazer de ensinar. Que lindo. Vai me dar um ponto negativo se eu não lhe der uma maçã?

-Vão precisar lhe dar alguns pontos da cara se você não calar a boca. –ela estava se divertindo. –Vê aquele garoto ali? Ele é um vampiro.

Wagner já tinha reparado nele quando entrou no bar, quase como teria reparado em um outro demônio. Vampiros, na prática, não eram muito diferentes do que ele próprio era: o que os diferenciava eram o propósito e as necessidades. Wagner tinha lambido uma ferida uma vez e não havia achado a pior coisa do mundo, mas não estava muito disposto a fazer de sangue sua refeição diária (nem precisava de alimento, afinal). Um bom bife à parmeggiana para saciar a gula lhe parecia bem mais apetitoso. E um vampiro não responde diretamente ao inferno, já que sua linhagem é outra.

Mais uma diferença: vampiros transbordam sua verdadeira natureza. Orgulhosos dos caninos.

-É de ficar enojado, mesmo. –disse a gorda.

-Vai ser ótimo usá-lo de cobaia. Melhor do que você ficar me usando, cigana.

-O nome é Celia. Agora prente atenção. Olhe como ele não esconde nada, como deixa o peito aberto e pelado. Note o cabelo jogado para trás, cheio de gel. O sovaco sem pelos.

Uma nova banda tocava magicamente bem, nenhuma nota fora do lugar, apesar das notas novas que iam surgindo. Não era nenhum hit daquela década ou da passada. Era música nova, coisa que só aquelas quatro pessoas conseguiriam fazer, e ninguém mais.

-Que gracinha.

-Se você acha. –ela riu e tossiu. –Sem brincadeiras, concentre-se. Dá para ver as veias, e como elas não pulsam. Os tendões, não lhe parecem flácidos? Olhe os gestos. E os olhos? As pupílas não se contraem. Estão mortas e estáticas. Estão…

-Exatamente como estavam ontem, e antes de ontem.

-É isso aí. Estavam exatamente como quando…

Solo de guitarra. Os tímpanos de Wagner estavam ficando loucos e seus neurônios, estasiados.

-Como quando… –notas gordas do baixo. O vampiro havia se levantado, caminhando da direção de uma garota. –Como quando… –bateria. Ele puxa uma garota. –Como quando…! –voz. Ele a morde.

Como quando um rapaz chamado Tiago voltava da faculdade de engenharia que cursava a noite. Estava frio, e ele seguia com as mãos enluvadas nos bolsos da jaqueta moletom. Estava mais escuro que de costume: haviam atirado pedras nas lâmpadas da sua rua. Havia ficado na faculdade para conversar com os amigos e perdera a hora. Uma garota havia insistido para que ficasse mais, que podia dormir em sua casa. Tiago, tímido, nunca cogitaria na hora que a garota estava interessada nele, e sua resposta foi não. A idéia só lhe vinha agora, e automaticamente era rejeitada. “Sonhar não mata, não é?”, ele pensou consigo. Mas e ficar sonhando, Tiago? Ficar com a cabeça lá no mundo da lua, enquanto há um vampiro ali, encostado no poste? Ah, isso sim é perigoso.

Ele sentiu um impacto tremendo vindo da direita e caiu no chão, com algo sibilando em cima dele. O moletom e a adrenalina bloquearam a dor das duas costelas quebradas, tendo uma perfurado o pulmão. Tudo bem: logo não precisaria mais dele. Contra a luz fraca da lua crescente, Tiago pode ver a silhueta maltrapilha, fazendo peso contra o seu corpo. Em algum canto do cérebro vinham os gritos: “reaja, reaja, reaja, REAJA! Tiagoseugrandefilhodaputa, REAJA!”, mas o corpo não obedecia. Ele inspirava e expirava grandes golfadas de ar, e logo soltou um jorro de sangue, vindo do pulmão direito inundado. A criatura lambeu seu lábio inferior e Tiago estremeceu. “O que está havendo, Senhor? O QUE ESTÁ HAVENDO!”

Tiago morreu e renasceu antes do sol surgir. A primeira coisa que suas pupílas petrificadas viram foi:

-A Estrela Dalva. –disse Wagner, ainda meio extasiado.

-BRAVO! –gritou Celia, e os clientes do bar batiam palmas para a música que terminava. Havia durado 25 minutos. Era daquelas que pode continuar para sempre, se depender de quem toca e de quem ouve.

Ela pôs a mão no ombro de Wagner.

-Quando uma pessoa se rende ao prazer, ela se rende ao íncubo. Nesse momento, o presente e o passado dela é completamente dele.

Wagner sorria como nunca.

-Oniciência! Celia, se sabemos tudo sobre a presa, temos total controle! Somos… como deuses!

Despertou com um charuto sendo apagado na nuca.

-Não seja idiota! Há uma coisa que nenhum demônio consegue vencer, que bloqueia nossos poderes. Está fora do nosso domínio.

-E o que seria, cigana heavy metal?

-O que nem você, nem eu, nem nenhum demônio nunca vai experimentar. Nós podemos despertas as paixões mais loucas, mas, Wagner, nós nunca vamos saber o que é amor.

14

Compartilhavam um charuto, Wagner e Celia. Mel. O capitão Douglas já havia terminado seu camarão e agora pulava ao redor dos dois pedindo um trago. Julian esfregava a têmpora e olhava o relógio. O sol já estava nascendo e os outros clientes haviam pego no sono; alguns ainda nus depois da transa.

Que noite!

15

Eu ainda vou brincar mais um pouco com você, garanhão. Sabe onde me encontrar.

Sim, Wagner sabia onde encontrar Raquel. De qualquer forma, pensava em visitar o Ibirapuera uma última vez. Era cinco de junho de 2006, seu último dia de estada na Terra.

Havia saído do bar sem se despedir de seus amigos demônios –se é que é possível um demônio chamar outros de amigos. Havia subido a Consolação, sentindo o sol ainda tímido na pele fria e curtindo o trânsito já movimentado: pessoas com caras amassadas de sono nos pontos de ônibus ou nos carros voltando ao trabalho, a máquina enferrujada do mundo capitalista voltando a funcionar. As pessoas não pareciam muito felizes, mas seguiam seu caminho sem reagir. “É como o mundo funciona”, pensavam todos eles, nenhum percebendo que o mundo era feito de pessoas, e não o contrário. Todos gostavam de se sentirem mártires do sistema, e usavam seu sofrimento “inevitável” como desculpa para cometer os pecados que cometiam depois. Todo bom trabalhador merece ficar bêbado de vez em quando, uma vez ou outra, todo sábado e domingo. Todo estudante que enfia a cara nos livros muito menos do que deveria tem o direito de curtir um videogame, de bater uma bola, de sair com os amigos: primeiro a diversão, depois a obrigação.

Era um mundo delicioso para um demônio, lotado de fontes de poder. Sob certo ponto de vista, para um demônio a Terra era muito melhor que o próprio Inferno. Wagner ia sentir saudade daquele mundo. Muita saudade.

A grama do Ibirapuera ainda estava molhada de orvalho, muito verde e brilhante. O lago estava calmo, e os pássaros cantavam. Não havia quase ninguém no parque, fora mendigos, funcionários, alguns praticando jogging e outros matando aula. Uma certa moça de corpo sinuoso que estava deitada nas curvas de cimento logo atrás da estátua de Pedro Álvares Cabral parecia estar nessa categoria.

-Então você veio. –disse Raquel. Usava óculos escuros, um top mostrando a barriga, calças folgadas de riponga, e um gritante cabelo chanel tingido de rosa. Estava descalça, e os dedos delicados estavam roxos de frio. No Ibirapuera, qualquer um ficava sucetível, como um humano comum.

-Pois é. –respondeu Wagner, mão nos bolsos canguru de um moletom preto, do outro lado da cerca de hera espinhosa que rodeava onde Raquel estava. -Gostei daquele seu amigo de ontem, quero dar uns pegas nele.

Raquel soltou uma risada gostosa, cheia de lábios com gloss claro.

-Tarde demais, querido. Depois que eu faço meu trabalho, não costuma sobrar muita coisa deles. Vai ficar em coma por uns dias ainda. E tempo é algo que nenhum de nós tem mais.

Raquel desceu, pulou a cerca de espinhos feito um moleque, e deu um beijo em Wagner. Em 100 anos de existência –99 anos e 364 dias, na verdade –ele nunca tinha experimentado um beijo tão gostoso: os lábios eram macios, o hálito doce, e a língua agia em perfeita sincronia com a sua, pressão perfeita. Poderia viver outro século só nele, mas o beijo se desfez em alguns segundos. Raquel pegou-o pela mão e puxou-o para dentro do Parque, sorrindo como uma criança brincalhona com algo para mostrar. Algo em Raquel era estranho para Wagner, e o fascinava. Ele seguiu-a sem resistência.

Correram. Passaram pelo museu, pela marquise, e Raquel soltou da sua mão e começou a ganhar distância, sempre espiando por cima dos ombros, sempre rindo. Wagner também ria. Chegaram a bienal, e Raquel cortou para a direita, avançando ainda mais para o centro do parque. Wagner indo atrás. Atravessaram a ciclovia e passaram por entre as árvores. Pularam o córrego. Quando estavam em uma quadra de basquete, Raquel pegou uma bola de um grupo de meia dúzia de moleques sentados no chão e lançou: cesta de três pontos, e a perseguição continuou sob os assobios e gritos deles. Wagner sentia os pulmões pegando fogo e as pernas pedindo socorro, mas a distância entre ele e a doidinha do cabelo cor-de-rosa estava diminuindo. Wagner fez um último esforço para alcançá-la. O ombro desnudo estava há um palmo de distância e Raquel soltou um gritinho de desespero brincalhão. Entrou num bosque. O demônio de piercing e brincos saltou e fechou a mão sobre ela…

E então não havia mais Raquel.

Wagner estacou. Subitamente, havia silêncio demais; só sua respiração tensa o cortava. Olhou para frente e só viu árvores e grama. Olhou para cima, e então ao redor, e nada além de verde. O choque foi passando, dando lugar a desespero.

-Raquel? –Wagner chamou, e riu nervosamente. –Como você fez isso? Vamos lá, não tem graça se eu não souber como brincar também.

Ninguém respondeu-o, nem sequer um pássaro.

-Raquel, chega disso. Não está divertido.

Nada.

-QUAL É O SENTIDO DESSA MERDA!? HÃ?!

E mais silêncio. Wagner se sentiu tonto, e com ânsia de vômito. Sonhara? O que era Raquel, senão uma criatura como ele sempre desejara ter encontrado? Tecnicamente, ela poderia ser uma ilusão, e então os dois guardas do dia anterior teriam sido também. Tudo havia funcionado tão perfeitamente, não era? Fazia sentido.

Tinha que fazer. Porque alguma coisa havia acontecido ali, e não parecia muito boa.

Logo ia ficar pior.

Wagner sentiu um frio na espinha e virou-se de súbito. Havia uma silhueta contra o sol, que já estava vermelho, poente; um corpo enorme usando chapéu, sobretudo e carregando uma maleta de couro legítimo. Na sombra, uma mancha de luz vermelha na ponta de um charuto. A sombra ergueu o charuto para ele, em brinde.

-Quem é você? –Wagner perguntou, ofegante de medo.

O homem respondeu numa voz tranquila, menos grave do que se podia esperar, um quê de infantil nela que era simplesmente absurdo.

-Eu sou.

E sumiu. Wagner soltou um grito e avançou para onde estava a silhueta a pouquíssimo tempo atrás… estivera mesmo? Wagner olhou ao redor e não encontrou uma viva alma. Até o grupo de moleques que haviam assobiado para Raquel e seu corpo não estavam mais sentados na quadra. O sol se escondia no horizonte. O demônio deu passos em direções incertas, depois se direcionou para a saída, e então estacou. Voltou para o meio das árvores, achou uma má idéia e retornou para onde estava o homem de chapéu. Gritou.

-Não grite. –disse uma criança, surgida do nada do lado de Wagner. –Mamãe disse que é feio gritar.

Wagner observou o garotinho, absorto. O menininho carregava uma bola de plástico e estava coberto de terra.

-Você tá perdido? –ele perguntou.

-Sim. Eu acho que sim. –respondeu Wagner.

-Vem. Vou te levar pra mamãe. Ela vai saber te ajudar.

O menininho pegou na mão de Wagner e o levou para o parquinho. Havia crianças espalhadas pelos brinquedos, e uma senhora os observava, sentada num banco de concreto, pintado de tinta desgastada. O menininho apontou para ela com seu dedinho rechonchudo e correu para as outras crianças. Wagner se aproximou lentamente dela.

-Perdido, moço? –a voz dela era brilhante: alta e afinada. Parecia uma cantora de ópera. Qualquer um teria chamado de “angelical”.

-Imagino que sim.

-Todos nesse lugar estão. Venha, sente-se aqui.

Wagner hesitou, mas acabou sentando.

-Sabe… não precisava ser assim. –a mulher disse. Seus dedos brincavam distraidamente com um molho de chaves. –As pessoas não precisavam viver nesse mundo tão cheio de problemas causadas por elas mesmas. –ela soltou um longo suspiro. –Se as pessoas simplesmente ouvissem mais, tudo seria bem melhor.

-Ouvissem o quê?

-A Palavra.

Wagner soltou um rosnado e se levantou. Porém, braços fortes lhe trouxeram de volta ao banco. Ele olhou para cima, e viu Raquel. Ela estava sorrindo para ele, mas não com aquela vivacidade de sempre. Parecia uma estátua, com a exceção de que se movia. Estava de novo com o cabelo loiro que tinha quando Wagner a viu pela primeira vez. Ele brilhava contra o céu cor de pêssego.

-Não pense que estou falando bobagens, Wagner. –a senhora disse, e pousou uma mão no joelho dele. Olhando atentamente para a senhora, Wagner notou muita semelhança entre ela e Raquel. –Religião, ou esse tipo de coisa. Estou falando daquilo que as próprias coisas boas falam. De cada bom aspecto da vida. As pessoas esqueceram de como se faz isso. Preferem se considerar azaradas, esquecidas por Deus, e culpam-no por cada bobeirinha que lhes acontece. Como se Deus, sendo onipotente, tivesse que resolver tudo.

Wagner não conseguia reagir. Então a senhora continuou.

-E quando alguma coisa boa acontece: uma reunião com a família, um encontro fortuito com um amigo de infância, ou um presente que era muito desejado, as pessoas se obrigam a agradecer a Deus, o que também é uma bobagem. Essas situações são completamente humanas: Deus não fez o brinquedo, ou a amizade entre as pessoas, ou o amor que a mãe sente pelo filho quando o amamenta. –a mulher olhou para as crianças com um olhar muito terno. Raquel puxou delicadamente a cabeça de Wagner, deitando-a em seu seio, quente e macio e perfeito. –A relação com Deus se tornou algo obrigatório, uma condição para ser alguém bom ou para coisas boas acontecerem, e tudo de ruim é considerado uma provação, um teste dessa fé. Se render ao pecado se tornou obrigatório da mesma forma, para você poder curtir a vida de uma maneira que Deus não permite. Eu não criei nada disso. Não criei o álcool e não criei o terço, não criei a fé nem o pecado. O que eu criei foi só a possibilidade, a energia original com a qual todos meus filhos puderam fazer o que bem entendiam. E, bem, talvez eu não devesse ter feito isso.

A senhora e Wagner se olharam nos olhos. Ela parecia muito triste.

-E está chegando a hora de eu tentar de novo. Era uma idéia boa demais para ter dado tão errado.

Wagner concordou lentamente com a cabeça… e então estacou. Tentou se desvencilhar de Raquel, mas ela não deixou. De repente era forte demais, e seu seio não era mais confortável: queimava-lhe a pele como gelo faz. Ele tentou se levantar, mas na posição que estava, isso lhe quebraria o pescoço. De canto de olho, viu as crianças largando os brinquedos e vindo na sua direção. O coração e os pulmões dispararam.

-Me dê o bilhete, Wagner. Raquel vai no seu lugar.

-E ela não tinha um bilhete?! –Wagner estava desesperado.

-Falso. –disse uma das crianças, uma menininha de chuquinhas.

-Eu já tinha visto anjos antes! Não me venha com essa de que ela era um!

-Não, ela não era. Apenas uma humana. –disse o menininho que havia ajudado-o.

-Impossível. –a voz dele estava abafada, a boca contra o seio de Raquel. Ele ergueu o rosto e olhou-a nos olhos. –Impossível. Eu… eu conquistei todas e todos. Todo humano sucumbiu. Você não é humana.

O sorriso dela não se abalou. Ela olhou-o e mexeu a cabeça como quem chama o outro de sonso.

-Ela era uma humana que me amava, Wagner. –disse a senhora. –Amava a verdade por trás das coisas. E eu a fiz amar você. Por isso você não pôde entendê-la.

-Não, não, não, não! –Wagner empurrava Raquel, e ela não se abalou. Puxou-o para um beijo, que ainda era o mais perfeito, o que agora era terrível. Raquel passou a mão pelo corpo dele, fazendo-lhe o melhor carinho, e então tirou do seu bolso o bilhete com o furo eternamente fumegante.

-Não criei o inferno também, Wagner. Na minha nova idéia não existe espaço para o inferno nem para o céu, por isso estou destruíndo-os. Dos anjos eu já dei conta há muito tempo, e desde o começo nenhum demônio voltou para o inferno: eu fiz os humanos tomarem o lugar deles, gente que realmente entende minhas intenções. Quando o apocalipse chegar, não haverá guerra entre céu e inferno; meu querido Lúcifer erguerá seu dedo para movimentar suas tropas, porém não haverá soldados para respeitá-lo, nem anjos contra quem lutar. E, estando todos estes seguidores na segurança do inferno, eu farei um novo dilúvio na Terra e lavarei todos estes problemas. O mundo será limpo novamente para aqueles que saberão como viver nele.

Wagner não conseguia dizer nada: o beijo de Raquel impedia. Seu ar estava acabando. Os braços não tinham mais força, e sua resistência havia se tornado espasmos. O sol havia se posto e a noite já estava alta. Inúmeras estrelas brilhavam.

-Eu gostaria de te dar uma nova chance, Wagner, mas não posso. –disse a senhora, que agora usava um chapéu e carregava uma maleta. –Você não entenderia. Isto é um adeus. Eu tenho muito trabalho pela frente.

Então era meia-noite. Sob o tilintar das estrelas que ele conhecia tão bem, o dêmonio de piercing e brincos morreu em silêncio.

11 thoughts on “Demônio – Piercing e Brincos

  1. Caio disse:

    Tô curtindo bastante esse conto. Hahahaha adorei o demônio “oráculo” com as pombas. E ela levou as pombas >de volta< para o Inferno? o.o hahahahahahahaha
    Quero ver mais desse conto ;)
    Ah, e sexagésimo alguma coisa… será que é algum nível do inferno? Mas eu sou adepto da teoria do Dante de nove andares apenas rsrsrs

    O Wagner é demais (y) o Ibirapuera, idem. Aprender mais sobre eles dois é legal. Valeu cara! XD

  2. Texugo disse:

    Hey cara curti o modo como vc arrasta a narrativa, deixa ela lenta (não muito) o suficiente pra envolver o leitor
    Naum sei pq, mas o Wagner virou o Hellboy na minha mente
    e a velha virou a Flávia!
    enfim, deixou mtas coisas em aberto, espero respostas na segunda parte XD
    Tah mto fodaa
    Curti pakas as referencias ao ibirapuera e as atitudes insanas dos humanos frente ao demonio
    Yohoho e uma garrafa de RUM!

  3. [...] Demônio – Piercing e Brincos [...]

  4. Rafael disse:

    Mãããe, eu posso ser um demônio?

    Bela narrativa, Ninja! Curti o mundo que vc criou e as propriedades do Ibirapuera hahaha

    O Wagner tbm tá mt peculiar, gostei dele ^^

    Aguardo ansiosamente a continuação ;D

  5. Caio disse:

    Curtia bastante essa parte, cara. Pode continuar o conto que tá ficando cada vez melhor. Não entendi o primeiro parágrafo direito, mas pode ser falha minha ;)

  6. Texugo disse:

    esse conto tah cada vez mais confuso…
    e por isso mesmo interessante XD
    Se vc parar de escrever esse negócio eu te mato e te frito em óleo de Mc donalds
    Vou comer queijo e quando eu voltar quero ver a continuação…
    por favor

    Tah demais Ninja
    XD

  7. [...] Demônio – Piercing e Brincos [...]

  8. May disse:

    *-* Tá, Comentario inutil, mas… Você realmente se superou nesse, você sabe né?

    Beijocas

  9. [...] InícioAnimaçõesMetamorfozoeirasSorria!ContosDemônio – Piercing e BrincosNoite na Três Trevos, Doze FolhasO palhaço do escritório 144Um papo com o dragão [...]

  10. lice shimuri disse:

    to no 2° cap, to amando a leitura, quero ler todos, vc é muito bom nisso, quero ler todos e quero q escreva mais para eu ler , ^^

Ei, Bruno, eu tenho algo a dizer:

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