-Daí eu disse: se você conseguir acertar a janela dela daqui, eu como meu sapato! Então o Jonas puxou a pedra no estilingue, fechou um olho para fazer mira, e tuf! Lá foi a pedra voando por cima dos telhados. E então clact! O barulho da vidraça quebrando, e um grito estridente. Não é que o maldito acertou?
Rufus estava com os braços apoiados na cabeça de um martelo de combate, feito para não deixar nenhum pilantra entrar ou sair da taverna Três Trevos, Doze Folhas. Ouvia o que Menino dizia com atenção afetuosa.
-É claro que eu não ia comer meu sapato, mas palavra de homem é palavra de homem, né? – Menino deu uma cotovelada no braço de Rufus, como quem diz “você me entende.” –Então eu negociei com ele e decidimos que seria justo que se eu conseguisse arremessar o sapato dentro da janela da Rosana, eu poderia ficar sem ter que comê-lo.
Rufus abriu um ligeiro sorriso. Mal dava para percebê-lo, graças a sua nuvem de barba ruiva e ao lusco-fusco das velas da taverna. O Menino levantou de seu banco para repetir as ações de sua história. Os calcanhares magros, descalços, bateram na pedra do chão num baque seco e dolorido.
-Eu tirei o sapato, tomei distância, e comecei a girar o sapato para pegar força. Quando eu ia soltar, quem aparece? O pai da Rosana, com um arco e flecha na mão! – Rufus riu sonoramente desta vez. –Ele nunca está por aqui. Está sempre atacando uma vila de goblins ou orcs ou kobolds, esses monstros todos… mas justamente quando eu e o Jonas resolvemos bater uma aposta, o maldito está em casa!
-Que fim levou o outro sapato? – Rufus perguntou, apontando para ambos os pés descalços. –Ele acertou uma flecha nele?
-Não. Eu tirei o outro para ficar mais rápido. –Menino respondeu como se fosse óbvio. Apesar de não fazer sentido, Rufus abanou a cabeça numa aprovação sarcástica, mas carinhosa.
-Bem, Menino, não acho que meus sapatos vão te servir.
Menino rolou os olhos para cima, como quem diz “ah, de volta à estaca zero.”
-Mas se o Manfred me vir sem os sapatos de novo ele vai ficar furioso comigo! Já deve ser a… sei lá, terceira vez que eu os perco.
-Quinta, que eu me lembre.
-Que seja! Vai, você precisa fazer esse favor para mim.
Rufus girou em seu banquinho e abriu um saco de estopa onde guardava seus pertences, que não eram muitos, aliás. Debaixo de uma camisa e de um trapo para amarrar o cabelo, ele tirou um par sobressalente de calçados. Eram pouco mais que sacos de couro costurados em certos pontos na forma de pé, grandes até mesmo para um adulto; sob medida para Rufus.
-Que o Pai e a Mãe te levem para o paraíso, Rufus! –Menino exclamou, alto no começo, sussurrando em sequência. Pegou os calçados e os vestiu. Mesmo ajustando as tiras, havia espaço para mais um pé em cada sapato.
-Olhe o respeito com os Deuses, garoto. Eles não gostam das malandrices.
Menino não deu ouvidos. Colocou as mãos na cintura e observou os pés. Na iluminação parca da Três Trevos, Doze Folhas, ele próprio não conseguia notar muita diferença entre seus sapatos novos e os antigos; quais as chances de Manfred ver?
Manfred não olhava muito para ele, de qualquer maneira.
Na cozinha, que ficava em um cômodo separado do salão por uma porta dupla de madeira e uma janela, o velho e gordo Manfred partia a barriga de um porco ao meio. Suas irmãs, ainda mais velhas e gordas, cortavam legumes, verduras e temperos desbotados. O cheiro misto de cebola, manjericão, salsa, pimenta, açafrão e gordura tomava conta da taverna toda. Menino adorava-o, apesar de não conhecer muito além do cheiro: sua alimentação era feita a base de restos, e havia anos que não sentia mais sabor em cascas de batata fritas.
Manfred surgiu à porta, limpando as mãos vermelhas de sangue no avental. Menino virou-se rapidamente para ele, colocando as mãos para trás e abaixando a cabeça. O taverneiro passou olhando as mesas. Seu jeito de andar era largo e desengonçado, por causa da barriga enorme, e as botas faziam um squich-squach por estarem molhadas. Esfregou a superfície de uma das mesas com o indicador e o observou.
-As mesas ainda estão sujas.
-Mas eu acabei de limpar.
-Não limpou direito.
-Limpei duas vezes! –e era verdade.
-Então limpe uma terceira, e desta vez faça direito. –Manfred jogou um trapo para Menino. Se este não tivesse pegado-o no ar, teria acertado seu rosto. – Você está aqui para trabalhar, não para conversar. Infelizmente não posso te demitir. –E, olhando para Rufus: -O que não vale para todos aqui.
Passou a mão suja pela barba de arame e depois pelo cabelo ensebado.
-Os clientes vão chegar a qualquer momento. Quero essas mesas brilhando, Menino.
E voltou para a cozinha. Menino olhou para Rufus, mas ele já tinha se virado na direção das escadas e não era mais possível ver seu rosto. Olhou então para a mesa que Manfred havia esfregado. Havia um reflexo alaranjado, magricela e de cabelos ralos, provocado pela vela na superfície da madeira, olhando-o de volta. Respirou fundo. E limpou-a novamente.
Como Manfred havia dito, logo começaram a chegar os clientes. A pesada porta de madeira rangia como as juntas de um demônio quando era aberta, fazendo o sininho de visitantes acima dela ser completamente inútil. Rufus então levantava-se, esperava a pessoa descer as escadas, fechava o arco de entrada com seu martelo e a observava, permitindo sua entrada ou não. Entre os que não entravam estavam moleques sem um pêlo no rosto, mendigos e antigos devedores. Rufus havia deixado entrar: um senhor em roupa muito vistosa, vermelha com fios dourados, acompanhado de um bruto que teve de deixar suas armas com o gigante ruivo; um velho careca que, como se para compensar, tinha a barba lisa como o cabelo de uma moça, quase no meio da barriga. Estava enfiado em robes roxos e trazia consigo um livro grosso como uma tábua; uma pessoa misteriosa escondida em uma capa que, à primeira vista, parecia uma criança, mas logo se entendia ser do Povo Pequeno; e vários trabalhadores da cidade, a grande maioria clientes antigos. Logo, a Três Trevos, Doze Folhas estava repleta de som, calor e de um forte cheiro de suor e cerveja.
Como exemplo de clientes antigos havia Pedro e Giuliano, que haviam se sentado ao balcão como faziam a mais ou menos dez anos. Viraram o primeiro caneco de cerveja e assim que bateram-nos no balcão, Manfred tratou de enchê-los. Eram uns dos poucos clientes que pagavam fiado, porque no final sempre pagavam.
-Você ouviu o bochicho de hoje, Pedro? –começou Giuliano, ainda sujo de farinha, com seu chapéu de padeiro amassado na mão. –Uma senhora, a tal da Tiara, veio falar para mim que quebraram a janela dela com uma pedra!
-Coisa de moleque, com certeza. –Pedro era guarda nas muralhas.
-Pois é! É o que qualquer homem pensaria, mas sabe como são as mulheres. Ela começou a berrar: “Goblins! Goblins estão invadindo a cidade!”
Pedro soltou uma gargalhada. Os canecos voltaram cheios de espuma e cerveja dourada, e os dois tomaram um gole.
-E então?
-Então que ela gritou para o marido dela ir atrás dos goblins!
-Pobre Germano. –disse Pedro.
-O homem não pode ter um momento de sossego em casa para fechar as feridas, Pedro! Onde já se viu. Tiara é uma mulher ótima, compra pão preto quase todo dia, já comprou pão branco duas vezes, -Giuliano levantou dois dedos cheios de farinha endurecida para reforçar o fato. –mas isso é demais.
-E é claro que o Germano foi atrás dos “goblins”.
-Exatamente! Ah, se fosse comigo… se fosse comigo, eu não levantaria um dedo! Não concorda, Pedro?
-Se fosse com você, você perguntaria até como ela preferia que você corresse!
Giuliano arregalou os olhos, enquanto Pedro ria e bebia.
-Oras, onde já se viu…?
-Acha que eu não conheço a Anastácia, aquela sua esposa?
-Conhece de onde, babá de muralha?
-Conheço da minha cama.
Giuliano deu um soco no ombro de Pedro e ambos riram com vontade. Secaram o caneco e Manfred os recolheu. Quando estavam quase parando de rir, olharam um para o outro e riram novamente, brindando.
Menino veio da cozinha com uma bandeja com uma cabeça de porco assada, cheirosa.
-Olha, se não é o Menino. Se bobear esse era o goblin da Tiara! – Giuliano disse. Pedro ameaçou de passar o pé entre as pernas dele, e Menino acabou tropeçando. Não por causa da maldade de Pedro, pois estava acostumado e desviaria sem olhar; o problema foi as botas grandes demais que usava. Aos passos trôpegos, deixou os dois beberrões para trás, gargalhando até perderem o fôlego. Tratou de levar a bandeja para o senhor vestido de vermelho, acompanhado do guarda.
Era um homem de queixo empinado e sobrancelhas arqueadas para tudo. O cabelo ralo era penteado rente à cabeça, para trás. Usava um monóculo. Baixou os olhos primeiro para o prato, depois para Menino.
-Se bem me recordo, havia dito para você trazer o que a casa tinha de melhor.
Menino olhava-o com a cabeça meio baixa. Fez um muxoxo, e apontou rapidamente para o porco, recolhendo a mão em seguida.
-Se é o que tem de melhor, então não vou querer comer.
Menino começou a suar. Cabeça de porco era o prato mais caro da casa –afinal, porcos costumam vir com uma cabeça só – e se ele voltasse com o prato para a cozinha sem dinheiro, Manfred não ia gostar. As irmãs de Manfred não iam gostar. O prato ia acabar indo para o lixo, e junto iria o almoço dele do dia seguinte, e então ele não ia gostar.
Um chacoalho fez com que voltasse à realidade.
-Ouça o que Lorde Von Bram está dizendo! –disse o guarda.
-Qual é seu nome, menino? Vou registrar uma reclamação.
Menino ficou calado. Uma veia saltou no pescoço de Lorde Von Bram.
-Seu nome!
-Menino.
-O quê? –a sobrancelha de Von Bram se arquejou ainda mais.
-Meu nome. Menino.
-Menino, pare de brincar comigo.
-Mas é sério! Você já me chamou pelo nome, meu nome é Menino!
-Menino não é nome de gente! Você tem que ter um nome!
Menino ficou olhando para os olhos do homem cujo nome era Von Bram, e permaneceu assim por um bom tempo. As palavras ecoavam na cabeça do garoto: “Menino não é nome de gente!”
A atenção começou a se voltar para eles, e atenção era algo que Lorde Von Bram não queria.
-Charles, pague o garoto. –o guarda tirou duas moedas de prata do bolso e entregou para Menino, que pegou-as distraidamente. Olhava para o chão, para as botas gigantes de Rufus. –Agora saia daqui, “Menino”. –e o Menino saiu sem rumo.
Von Bram olhou o relógio mágico em seu pulso, que criava um relógio de sol ilusório; um item caríssimo, vindo das colônias do Oriente, e que não servia para quase nada na prática, já que mais ninguém possuía relógios para entender o conceito de horas. Olhou então para o arco, ansioso para que ela chegasse logo, e que trouxesse o que ele queria. Afinal, estar naquela espelunca havia de recompensar no final.
O que ele viu não foi uma mulher, e sim um garotinho usando roubes pretos e um chapéu pontudo. Aquilo não chamou sua atenção, então se virou para a cabeça de porco, que passou a beliscar com o garfo.
Já a atenção de Rufus estava toda centrada no garotinho.
-Mas eu preciso falar com Mestre Tadeus! –ele dizia. Sua voz era fina e era difícil definir se era um menino ou uma menina. Seu rosto era cheio de sardinhas e os olhos azuis faiscavam por debaixo do chapéu de couro preto.
-Muito criança. Desista. –disse Rufus.
-Sabia que eu posso te transformar em um sapo, meu senhor? –a criança cruzou os braços e bateu os pés.
-Vá em frente. Sou capaz de te barrar mesmo que me transforme em um tijolo, em um saco de feijão, ou em um garotinho babaca.
O pequeno aprendiz de mago bateu os pés no chão várias e várias vezes, resmungando, com Rufus apenas olhando-o. Ele adoraria transformar o homem malvado em um sapo, mas essa magia ele ainda não tinha aprendido.
A porta rangeu novamente, e uma mulher desceu as escadas. Ela.
A mulher era bela. Vestia roupas de cortes ousados, deixando partes da pele cor de canela à mostra. Uma capa com capuz estava jogada sobre os ombros, e um pano escondia metade de seu rosto. O cabelo era cortado na altura do queixo, quase ultrajante. No quadril largo, uma caixa muito bem decorada.
O aprendiz de mago ficou abobalhado, observando a mulher naquele torpor inocente das crianças perante beleza. Rufus não se abalou um milímetro sequer.
-O que há na caixa?
A mulher mostrou. Havia sobre um forro de veludo azul uma pedra lisa, um pouco translúcida, laranja. A mulher deixou a caixa aberta por alguns instantes, depois fechou-a.
-É um tesouro. Vou fazer negócios. –disse ela. Sua voz era uma mistura perigosa de doçura e firmeza. –É permitido fazer negócios nesta taverna, não é?
Rufus inclinou-se para frente e olhou fundo nos olhos da mulher. Não encontrou nenhuma intenção ruim. Relaxou e sentou-se, liberando o caminho para ela. Enquanto ela caminhava em movimentos ondulantes para dentro da Três Trevos, Doze Folhas, o garotinho de chapéu pontudo voltava a resmungar.
Enquanto isso, Menino foi até a cozinha para entregar as duas moedas de prata para as irmãs de Manfred. A fumaça ali dentro era pesada de gordura, amarelada e densa a ponto das formas perderem nitidez. Uma das irmãs preparava algum caldo e a outra lavava uma pilha de louça; ambas de costas para ele. Foi até a que lavava louça e despejou as duas moedas no bolso do avental dela. As moedas tirilintaram contra outras lá dentro. A velha sequer lhe dirigiu a atenção. Menino estava se virando para voltar ao salão quando estacou. Havia visto algo no topo da montanha de louça? Virou-se, e confirmou: era algo redondo, com cauda longa, patinhas hábeis e um nariz curioso. Algo inteligente, pilantra e ousado.
Menino odiava ratos, e adorava odiá-los. Porque, no final das contas, caçá-los era a única coisa divertida que havia para se fazer naquela taverna. Sacou de seu bolso seu estilingue e uma das pedras, e sorriu.
No salão, a mulher estava sentada à mesa de Lorde Von Bram. Havia uma cabeça de porco meio comida sobre uma bandeja rude de prata. O homem limpava os beiços com um pano de seda tirado do bolso, e falou assim que engoliu sua última garfada.
-Trouxe o que lhe pedi?
-É claro. –aquela voz fez os pêlos na nuca de Von Bram se arrepiarem. Ela tirou a caixa da cintura e a colocou sobre a mesa. Abriu-a. Os olhos do homem faiscaram.
-É realmente ela? A gema dos desejos, de Gustav?
-Se deseja saber com certeza, pergunte para ela. –a mulher apontou para a pedra. –Ela pode realizar qualquer desejo.
Lorde Von Bram abriu um sorriso, tentado parecer inteligente. Sabia que a pedra podia realizar apenas um desejo. Então seu sorriso se tornou um esgar tremido com a idéia de que se não tomasse cuidado, seu único pedido poderia ser gasto com qualquer coisa fútil, como outra cabeça de porco assada surgindo ou com aquele véu que escondia o rosto da mulher desaparecendo.
-Permita-me testar. –disse ele, esticando a mão para pegá-la. Os dedos estavam trêmulos, os anéis chacoalhavam.
Mas a mulher fechou a caixa, quase prendendo-os.
-Primeiro meu pagamento. Não acho que eu vá recebê-lo caso Vossa Senhoria deseje, de repente, estar no castelo no lugar de Vossa Majestade, longe do meu alcance.
-E se ela for falsa?
A mulher fez um gesto para Charles, o guarda, e para Rufus.
-Não acho que eu vá a lugar algum.
-Se ela é a verdadeira, por que não a usou? –Von Bram sorria, subitamente orgulhoso de sua perspicácia.
-Ética.
-Ladrões éticos?
-Ladrões são mais éticos do que muitos nobres, se me permite a franqueza. –disse ela, e o sorriso dele virou um rosnar. –Contratou-me para conseguir a pedra e me deu informações para consegui-la. Aqui estamos, eu e ela. Agora pague meu preço.
Lorde Von Bram estalou os dedos para Charles, que sacou uma bolsa de couro. Havia vários calombos contra sua superfície, e ela parecia muito pesada. O guarda colocou a bolsa sobre a mesa, fazendo um baque surdo. Seguido de um estilhaço de louça, mas vindo da cozinha.
Mais estilhaços. As altura das conversas na taverna foi diminuindo, diminuindo, até ser silêncio, e a atenção se voltou para gritos e resmungos desdentados, louças quebrando, e o som quase melodioso de um elástico sendo puxado e solto. Todos estavam estáticos no salão, com a exceção de um: o homem Pequeno.
Em dois pulos longos, o Pequeno passou feito raio na frente da ladra, pegando a caixa e o saco de dinheiro. A ladra, reflexos rápidos, quase pegou seu tornozelo em pleno ar, mas falhou por centímetros. Deu um soco na mesa, e a atenção de alguns voltou ao salão. O Pequeno fez uma curta saudação a todos e correu para a saída.
Dando de frente com Rufus.
O gigante ruivo brandiu o martelo, mas só acertou chão; o Pequeno, ligeiro, subiu pelo seus braços e ombros. Firmou os pés em suas costas e, antes que Rufus pudesse ajeitar sua postura, o Pequeno já havia saltado… apenas para trombar com o aprendiz de mago, que já subia as escadas, magoado e com sono.
A caixa caiu, desceu rolando os degraus, e abriu-se. A gema, quase perfeitamente redonda, rolou para dentro do salão. À luz das velas, parecia uma esfera de ouro liquefeito. No seu movimento, a ladra havia mudado sua posição e a pedra vinha diretamente para ela. Já estava agachada para apanhá-la, mas a gema não chegou à sua mão.
Pedro agarrou a mulher antes.
Giuliano abaixou-se e pegou a gema com os dedos enfarinhados. Pedro jogou a mulher para o lado, que girou e ficou em pé numa acrobacia. Giuliano segurava a gema perto do rosto, abismado com sua beleza, e então a brandiu em comemoração.
-Conseguimos, Pedro!
Mas Charles tirou-a de sua mão.
-Ótimo, Charles! –gritou Von Bram.
Quatro clientes voaram para cima de Charles, mas o homenzarrão os derrubou com socos bem dados. O que veio depois, porém, não podia ser parado com socos: uma mesa.
Começou a guerra. Manfred olhava do outro lado do balcão aquelas cadeiras, mesas, canecos e pessoas sendo arremessadas contra as outras. Viu a gema mudando de mão várias vezes. Viu Rufus tentando apartar a briga, mas era fútil. Por isso, nem se deu ao trabalho de fazer algo, como sempre. E não seria ele quem iria limpar, de qualquer maneira.
Quem iria limpar era Menino, que surgiu da cozinha com um chute nas portas duplas. Estava usando pedaços de louça como munição para seu estilingue, e não percebeu a bagunça que o salão estava –não era a primeira vez que saia briga ali, também – e continuou pegando coisas do chão para acertar o rato. Fragmentos de pernas de cadeira, asas de xícaras, moedas de bronze, broches.
O rato disparou entre os brigões, desviando de pés e corpos, rumo ao que Menino achou que era uma grande moeda de ouro. O bicho parecia interessado nela e indo diretamente ao seu encontro. Menino botou a língua entre os dentes e fez mira.
Mas Giuliano foi derrubado por Pedro quase em cima dele, que teve que sair para não ser esmagado. Os dois discutiam algo sobre traição; Menino não prestou atenção. Procurava o rato, mas não havia mais sinal dele.
Detrás de Rufus, surgiu um garotinho sardento metido em roupas pretas e chapéu pontudo. Ele gritou “Ei, Professor Tadeus!” e o velho de barba lisa e robes roxos, pela primeira vez desde que havia posto o pé na taverna, saiu do seu transe literário e olhou. O garoto fez três gestos com as mãos e as estendeu para frente. E, do meio da briga, houve um clarão, e onde antes havia um rato, de repente havia uma noz.
-Consegui! –o garoto gritou. –Viu! Eu consegui!
A bola rolou entre todos. Estavam cansados e machucados demais para tentar pegá-la. Ela foi até os pés de Menino, vestidos em botas muito maiores que seus pés, presentes de seu único amigo. Pegou-a, e ela brilhou.
Tadeus levantou-se. Os cantos de sua boca se abriam num sorriso.
-A gema de Gustav. –disse, pasmo. –Como ela veio parar aqui?
O garotinho havia alcançado-o e puxava seus robes.
-Viu, consegui aprender o feitiço! Não vai mais me deixar de recuperação, vai?
O mago estendeu a palma para o baixinho. E depois para Menino. Disse duas palavras, e um raio saiu dela.
Para atingir o Pequeno, que havia esgueirado para detrás do balcão e esperado um momento oportuno.
-Olhe como as coisas são hoje em dia. Você tenta escapar do Colégio para beber cerveja e ler um livro e se depara com um artefato raro. –ele disse para Menino. Sua voz era serena como nenhuma outra, e levemente humorada. Ninguém se movia; apenas escutava. Súbito, todos eram alunos. –A gema de Gustav é uma pedra inteligente e muito honesta, meu rapaz. Ela não se sente bem em mãos egoístas e nunca libera seu poder. O que não parece ser o seu caso, não é mesmo?
A gema brilhava como um pequeno sol. Sua superfície estava morna como uma tarde de outono. O Menino olhou-a e sentiu-se alegre.
-Você tem direito a um desenho, rapaz. Faça-o!
Menino olhou para o mago, e então para as outras dúzias de olhos que o observavam. Olhou as mesas destruídas, as colunas de pedra, as velas apagadas no chão, e a noz que antes era um rato. Olhou a ladra, o ladrão –desmaiado ao seu lado – o nobre e seu guarda, o padeiro e o milico. A cabeça do porco, agora em frangalhos. Olhou para Manfred e suas irmãs à janela da cozinha, olhando atentamente para ele pela primeira vez. Olhou suas botas grandes e olhou o dono delas, dando uma chave de braço distraída em um bêbado que também não estava reparando no agarrão.
O que desejava?
Refletiu. O silêncio era imperioso. Passou à sua mente uma série de desejos comuns, e todos pareciam muito bons, mas nenhum soou verdadeiro. Lembrou de Von Bram e das suas palavras –“Menino não é nome de gente!” – e então o primeiro desejo sincero lhe ocorreu. Mas ainda assim não era o que realmente queria. Olhou finalmente dentro da gema dos desejos de Gustav e sabia o que pedir.
-Quero um emprego melhor para Rufus.
-O quê?! –a taverna inteira, em coro. Menos Rufus. Rufus estava atônito.
-É o que eu mais quero. Eu não tenho filhos nem esposa, e apesar de tudo eu tenho o que comer aqui. O Manfred não vai me demitir porque eu nem contratado dele sou, ele só me pegou para cuidar por causa de uma promessa que fez para a deusa Mãe. Agora o Rufus… ele é meu único amigo. E merece coisa muito melhor. –os dois se olharam, e sorriram. –Sabe, uma vez eu fiquei sem almoço, e o Rufus me deu um terço de uma maçã. Na hora eu não reparei, mas depois eu percebi que ele não comeu o resto. Deve ter guardado para os dois filhos.
Uma lágrima rolou pela barba ruiva.
-É isso. Eu quero um emprego melhor para o Rufus.
A gema dos desejos de Gustav se apagou e ficou pó, perdendo substância entre os dedos do Menino. O garoto caminhou até o gigante ruivo, que havia soltado o brigão e agachado para ficar à sua altura. Abraçaram-se demoradamente. A taverna toda apenas assistia. A ladra sorria por debaixo do véu. Manfred e suas irmãs ficaram sem ação.
-Eu não sei como agradecer. –disse Rufus.
-Não precisa. Eu fiz o que queria.
Rufus levantou um dedo, mostrando que tinha tido uma idéia.
-Sei como te agradecer. Que tal um nome?
Os olhos do Menino brilharam como a gema havia brilhado antes.
Rufus e Artur levantaram-se e já rumavam para as escadas quando Tadeus os parou.
-Para ser sincero, -disse, com as mãos nos ombros de seu aluno sardento –precisamos de um guarda novo no Colégio. Só por coincidência, claro.
-FIM-
Eu li, mas não comentei todos… Mas o que posso dizer? Tu é foda u.u auhuhauha