Senhora Dolores


1

O elevador chegou ao sexto andar e Senhora Dolores estava com ambas as mãos ocupadas por sacolinhas de compras. Sua sorte era que havia um rapaz muito educado presente, que segurou a porta para que ela passasse. A senhorinha agradeceu-o com um sorriso de dentes postiços.

Ela entrou no seu apartamento – só havia um por andar – e arrastou os pés cansados pelos tapetes caros da sala de estar. Entrava pela janela uma gostosa brisa fresca e o sol da manhã de primavera. As cortinas pêssego esvoaçavam tranquilamente e um sino dos ventos tilintava. Calmamente, ela foi à cozinha, onde os móveis eram de madeira boa e as pedras eram mármore escuro. Deixou as sacolas sobre o balcão e subiu num banquinho que ficava próximo ao armário, para alcançar as prateleiras mais altas. Pegou uma caixa com potinhos de misturas de café com baunilha, ou chocolate, ou pimenta… ela gostava de fechar os olhos, misturá-los com a mão e tirar na sorte as bebidas de cada manhã. Três Mokaccinos, foi o que saiu. Ela riu-se com a coincidência, desceu do banquinho e ligou na tomada sua máquina Dolce Gusto.

O processo de fazer o café era simples, lento, e por isso saboroso. Ela assistiu à água quente passar pelos potinhos encaixados dentro da máquina e sair cremosa e cheirosa. Quando três xícaras estavam cheias da bebida, ela abriu as sacolas de compra.

Pães franceses, língua de sogra, sonhos de doce de leite e quindins. Ela pegou pratos grandes e criou três grupos contendo uma xícara, meio pão e cada um dos doces. O dela, comeu na cozinha mesmo. Para uma senhora da sua idade – já tinha mais de sessenta – comia muito bem. Seu apetite era maior do que o de todas suas amigas, com quem costumava discutir livros nas tardes de sábado. Costumavam brincar que seu marido lhe dava muito trabalho. “Aquelas velhas safadas.” pensava consigo mesma com um sorriso nos lábios finos.

O segundo prato ela levou para seu marido, que estava na sala, sentado na poltrona vendo jornal na televisão de 60’’. O som estava bem baixo. A voz do âncora, que divulgava algum caso de prisão no interior de São Paulo, não superava nem o sino de vento. Seu marido não parecia se importar. Na verdade, não parecia sequer estar assistindo de fato ao programa.

A verdade era que seu marido não estava muito bem.

Ela colocou o prato no colo dele e esperou sua reação. Ele era sempre muito lento nisso. Levava segundos até a cabeça começar a girar para baixo, na direção do prato, os olhos estáticos e sem foco. Então sua nuca soltava estalos secos, como se houvesse gravetos dentro de sua medula. As mãos, deixadas sob os braços da poltrona pela própria Senhora Dolores, mexiam-se um pouco, mas parecia que os músculos do braço não eram capazes de levá-las ao prato. O velho babava e gemia, no começo murmúrios curtos, depois grunhidos carregados de ranho. Dolores usava um pano que deixava guardado no bolso do paletó do marido para limpar a baba que escorria, dizendo pequenas frases quase ininteligíveis de incentivo e aprovação. De vez em quando funcionava, tinha dias que seu marido estava mais bem disposto. Mas depois de quinze minutos, Dolores desistiu e levou o alimento à boca dele.

O café-da-manhã demorou uma hora para acabar. O café já tinha gelado, os doces tinham ressecado e o homem mal tinha terminado seu pão. Os grunhidos tinham se transformado em verdadeiros uivos de raiva repentina e a senhora estava ficando com cada vez mais medo. Decidiu que seu marido só queria assistir ao seu jornal – que agora já tinha acabado. Ela não devia ter incomodado-o. Passava a ponta dos dedos pela superfície lisa e agradável do prato cheio de restos babados para não reparar no marido que voltava sua atenção à televisão, novamente.

Ela então voltou à cozinha, deixou a louça na pia e pegou o terceiro prato, pois havia mais uma pessoa para ser alimentada.

2

Dolores abriu a porta que dava para o quarto de hóspedes. Não era grande, mas ostentava o mesmo luxo que o resto do apartamento: o guarda-roupas, a penteadeira, os criados-mudos e a cama eram da época que a mobília era feita para durar. Um lustre pendia do teto, com treze lâmpadas novas – uma havia sido retirada propositalmente – feito de ouro e prata. As janelas estavam escancaradas e o quarto estava banhado de luz e frescor. E sobre a cama, uma garota olhava para fora com as mãos no queixo.

Estava de costas para Dolores. Seus cabelos eram negros como a noite e caiam em ondas volumosas até rolarem sobre a cama. O vento brincava em suas curvas. Ela estava nua e seu corpo exibia a inocência lânguida, transcendente, dos doze ou treze anos. Não se mexeu um centímetro sequer, mesmo quando Dolores disse, entrando de mansinho no quarto:

- Boa dia, trouxe café e doces…

A senhorinha fechou a porta, meio atrapalhada por causa do tamanho do prato. Arrastou-se até o criado-mudo ao lado da cama, onde deixou-o.

- É melhor você comer. Precisa de energia.

A menina continuava estática.

- Já faz algum tempo que você não come nada. – Dolores disse, num tom idoso de preocupação. – Vamos, este café tem chocolate.

Dolores viu os ombros e o peito da menina se soltarem num suspiro. Ela disse, numa vozinha infantil e cansada, ainda olhando para fora:

- Se você se preocupa tanto comigo, por que não me deixa sair daqui?

- Nós já tivemos esta conversa antes, minha querida. – disse, pacientemente. – É para o bem de todos nós. Você não pode sair.

- Você não faz ideia do que está falando. – a voz da menina tornou-se instável, tremida. – Isto não está fazendo bem para mim. Já disse tantas vezes, eu preciso sair daqui! Eu não aguento mais essa cama! Não gosto dessa cidade onde você vive! Não gosto de nada desse lugar!

Foi a vez de Dolores suspirar. Ela esfregou a raiz do nariz com o polegar e o indicador.

- Eu sei que você está sofrendo, minha querida, mas eu não posso deixar você ir embora. Você é muito importante para mim… eu preciso que você continue aqui.

A menina finalmente virou-se. Não foi um movimento gracioso: seus dedos se afundaram no cobertor como garras e os nervos de seu pescoço saltaram. Fitou Dolores com olhos vermelhos sem pupila. Do fundo de sua garganta, veio o grito rasgado:

- ME SOLTE, SUA VELHA!

Dolores baixou a cabeça. A menina mordeu o cobertor num acesso primal de ódio e continou gritando:

- EU QUERO VER MEUS PAIS! EU QUERO IR PARA MINHA CASA! EU QUERO BRINCAR COM MEUS AMIGOS! – seus lábios pareciam se soltar das gengivas e não havia uma veia sequer em sua testa que não fosse claramente visível. – ME TIRE DAQUI OU EU VOU MATAR VOCÊ!

Foi a vez da Dolores gritar:

- EU NÃO POSSO, ESTÁ BEM?! – lágrimas cairam dos seus olhos, doloridos pela glaucoma. A menina parou de gritar, mas ainda ofegava de ódio – Eu queria, eu juro que eu queria, mas eu não posso… por favor, me desculpe.

E saiu do quarto o mais rápido que pode, levando consigo o prato. Quando a porta fechou, o silêncio pesou no ar.

A menina deu um soco surdo no cobertor. Tinha que admitir que sentia pena da senhora, fosse lá o motivo pelo qual a mantinha presa naquela cama, mas não era justo que se fizesse isto com ela.

Ela observou o brilho do círculo e do pentagrama costurados no cobertor com fios de prata e ouro, dentro do qual estava. O sol fazia com que brilhassem intensamente. As dobras que suas mãos iradas haviam produzido no cobertor iam só até o perímetro do círculo; após ele, o tecido estava intacto.

- Pai… mãe… – a menina, exausta após a onda de raiva, murmurou para o mundo lá fora – como eu faço para sair daqui?

3

A senhorinha passou o resto da manhã e o começo da tarde sentada na sua poltrona na varanda, lendo “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. Era na verdade uma releitura. Uma de suas amigas do clube do livro havia dito ter encontrado uma dica escondida que poderia ser a chave para solucionar o mistério que ronda a história – teria Capitu traído Bentinho, o personagem-narrador? – mas só falaria caso o romance se tornasse o escolhido do mês. Para Dolores, era só uma maneira da amiga não precisar ler um livro novo, mas não reclamou. Gostava da obra.

Escobar, o belo amigo de Bentinho com quem talvez ela tenha cometido um adultério, lembrava-a seu marido em sua juventude. Loiro, de olhos azuis, forte e bonito. Ela havia se apaixonado por ele a primeira vista num baile que haviam promovido na sua rua. Na época ela tinha apenas quinze anos e ele já estava formado na faculdade de Direito. Lembra-se perfeitamente dele numa camisa polo, calça jeans e sapatos lustrosos, o cabelo loiro cheio de brilhantina, conduzindo com perfeição todas as garotas mais velhas e interessantes nos ritmos do rockabilly. Ela não sabia dançar e tinha roupas péssimas, então ficava de fora, assistindo seu amado detrás de duas linhas de pessoas.

Só viria a se relacionar com ele mais de duas décadas depois, num acidente fortuito. Ela queria se separar do primeiro esposo, um inescrupuloso que se sentia mais homem por bater nela. Com o apoio de alguns familiares mais liberais – sua mãe e seu pai sentiriam uma vergonha dela que fora evidente até o momento da morte dos dois – ela conseguiu o divórcio. E quem tinha sido o advogado que conduzira a separação?

Casaram-se depois de cinco anos de relacionamento. Desde então, tinham vivido uma vida feliz regada a viagens a cartões postais, cruzeiros extravagantes, jantares exóticos e muito carinho. As tristezas, como o aborto de dois filhos, a perda de parte do patrimônio por conta de uma negociação ilegal do escritório do marido, o afastamento dos amigos antigos, só ajudaram a unificá-los mais ainda. De noite, na cama, ele sussurava no seu ouvido com sua voz grave que tudo ficaria bem. Ele estaria ali para ela, sempre. E que no final, eles atravessariam para o outro lado juntos.

Juntos.

O vento cessou e as cortinas pararam de esvoaçar. O sino de vento parou. Dolores olhou para o lado e viu seu marido assistindo à televisão, exatamente como o havia deixado mais cedo. E as lágrimas mancharam sua edição rara de Dom Casmurro.

Ela saiu de casa às três horas da tarde para se encontrar com suas amigas do clube do livro. Colocou um vestido preto, jóias no pescoço e dedos, e penteou os cabelos brancos num coque elaborado. Gostava de ficar bonita para se encontrar com suas amigas, pois elas faziam o mesmo.

O ponto de encontro era próximo, num café dentro do shopping. Ele tinha cadeiras ao ar livre, debaixo de copas de árvores frondosas e bem aparadas. O cheiro de café torrado na hora era o perfume permanente do local e inspirava pensamentos e elegância. Os funcionários reconheceram-na quando chegou: “Senhora Dolores! Como vai nessa tarde tão agradável? Podemos preparar o de sempre?” ela confirmou com um sorriso e se arrastou até o lugar de sempre, perto de uma queda d’água artificial. Suas três amigas já tinham chegado.

- Dolores! – disse Carmen, animada. Levantou-se para dar-lhe um abraço. – Faz tempo que não lhe vejo com este vestido. Está bastante elegante, se quer saber minha opinião.

- Verdade. – concordou Lúcia. Era a mais velha do grupo, mas sua lucidez impressionante virava assunto da mesa em quase todos os encontros. – Como você está, minha amiga?

- Vou bem… – respondeu, sentando-se. – Um pouco cansada, mas bem.

- Não é a toa, lindinha. – disse Helga, a mais nova do quarteto e a única solteira. – Faz quanto tempo desde a internação do seu marido? Duas semanas?

Lúcia soltou um som de desaprovação.

- Será que não tem senso, Helga? – disse Carmem. – Dolores acaba de chegar e você já solta uma das suas.

A mais nova olhou para Dolores com uma feição de preocupação. Dolores conhecia o teatro da amiga.

- Fique calma, Carmem. Está tudo bem. A gente vai vivendo e vai aprendendo a superar as coisas mais rapidamente.

Carmem sorriu em aprovação.

- Você sempre foi bastante forte, Dolores. Não é agora que vai falhar.

- E como está seu marido? – perguntou Helga. As outras duas reprovaram-na com um olhar. – Não precisa falar se não quiser, mas, bem, se quiser uma brecha para desabafar… estamos aqui para isso, também.

- Estamos aqui para discutir livros… – começou Carmem. Os atendentes trouxeram seus pedidos e ela parou de falar para agradecer com um meneio de cabeça.

- Meu marido está ótimo, Helga. Estava me ajudando com a louça quando vim para cá. Almoçamos juntos.

Lúcia riu-se e bateu uma palma de alegria.

- Um homem ajudando com a louça! Onde já se viu.

- É um homem moderno, mãe. – disse Helga. Apenas uma década e meia separavam Helga de Lúcia, mas ela gostava de chamá-la assim. – Nunca dei a mesma sorte. Minha vida sempre foi uma sucessão de cafajestes ou fracassados. Parece que tem gente que nasce para sofrer.

- Eu diria que tem gente que faz por merecer o sofrimento. – cutucou Carmen, bebericando chá gelado com lichia. Lúcia e Dolores riram.

Helga as ignorou e continuou.

- E ainda por cima o homem é duro na queda. Quando você disse que ele tinha sido internado, eu é que quase tive um infarto! Desculpem-me por falar assim, mas um homem na idade dele raramente aguenta um ataque do coração.

- Tenho que admitir que houve bastante sorte envolvida. – concordou Carmem, já que Dolores não aparentava estar incomodada com o assunto.

- Isso não tem nada a ver com sorte. – disse Lúcia, levemente irritada. Então disse olhando nos olhos de Dolores. – Foi Deus quem salvou seu marido. Escute o que eu digo.

Dolores sorriu fracamente. As rugas sob seus olhos pareceram ficar mais fundas, mesmo com a maquiagem que as cobria.

- Com certeza, minha amiga. – respondeu. – Com certeza.

4

Dolores voltou para sua casa e o que viu fez seu coração disparar perigosamente.

Sua bolsa caiu das suas mãos trêmulas e disparou pelo apartamento o mais rápido que sua idade permitia, enquanto gritava:

- POR FAVOR, NÃO!

Conseguiu alcançar seu marido a tempo de evitar que ele abrisse a porta do quarto de hóspedes. Pegou sua mão e a afastou da maçaneta. A pele do seu marido se esfarinhava entre seus dedos e ela não conseguiu conter as lágrimas. O homem a observava com olhos perdidos. Sua boca estava entreaberta e ele murmurava constantemente. Como se quisesse falar, mas algo o impedia.

Dolores não conseguiu olhar diretamente para seu rosto. Pegou mais firme em sua mão e o levou de volta para sua poltrona frente à televisão. Ele resistiu no primeiro passo, porém seguiu-a depois. Sentou-se. Muco escorria de seu nariz e olhos. Os músculos do rosto estavam tão flácidos que pareciam de pendurar sobre a pele, que não parecia ser resistente o bastante para suportá-los por muito tempo.

Dolores fugiu para seu quarto.

Jogou-se na cama gritando incoerentemente. Socou os travesseiros encharcados de lágrimas e os arremessou do outro lado do quarto, sobre uma prateleira de livros e esculturas, e quebrou uma coruja de cristal. Dois livros de capa de couro cru tombaram da prateleira e caíram abertos no chão. O couro tinha sido marcado com pentagramas.

Dolores não quis levantar para pegá-los.

Tinha medo de ver em qual página eles tinham aberto.

5

A noite já estava avançada e Dolores tinha dormido de pura exaustão quando foi despertada por um estrondo. A porta do apartamento estava sendo forçada.

O primeiro pensamento que veio em sua cabeça era que sentia muita fome. Logo depois, o estranhamento de acordar no seu quarto enquanto ainda estava escuro. Somente em seguida que percebeu que precisava agir rápido. Se Dolores tivesse oportunidade de refletir sobre a situação em outro momento, se odiaria por ter demorado tanto tempo.

Levantou-se e tropeçou nos sapatos de salto alto que havia usado naquela tarde – será que já era outro dia? Não sabia dizer – desviou deles e correu. Girou a maçaneta com pressa e deu de cara com a porta do quarto de hóspedes aberta. Soltou uma praga e disparou a correr.

Seus pés e pernas protestavam quando entrou no bem-cuidado quarto de hóspedes. A luz estava acesa e ela viu duas novas figuras sobre a cama. Ambas pararam de fazer o que estavam fazendo para observá-la.

Uma das figuras era uma mulher. Ela tinha olhos vermelhos sem pupilas, cabelos longos e negros, e estava nua. Assim como a menina que forçadamente vivia em seu apartamento. As mãos da mulher estava absortamente sobre o círculo de ouro e prata que estava bordado no cobertor.

A outra figura era um homem, de costas para Dolores, olhando-a sobre o ombro. Era alto, maior até mesmo que seu marido. Tinha as mesmas características das outras duas, porém era bem mais perigoso. Em sua mão, havia uma arma.

- Vocês não podem levá-la. – disse Dolores, sem realmente prestar atenção no que dizia.

O homem a fitou com olhos frios e voltou-se para a mulher.

- Não consegue desmanchar esse feitiço?

- Não. – respondeu a mulher. Sua voz era doce e encantadora. – É um ótimo feitiço. O demônio responsável talvez seja um presidente.

-  Deixe-a! – continuou Dolores. – A vida do meu marido depende disso!

O homem virou-se para ela e o silêncio se arrastou.

Então disse, numa voz potente:

- Acha justo?

Dolores abriu a boca, mas não pode dizer nada.

- Acha justo fazer isto com minha família?

- Me desculpe. – disse Dolores. – Nâo era minha intenção. Por favor, acredite em mim.

- Qual era sua intenção então? – perguntou a mulher sobre a cama.

- Eu só não queria perder meu marido. Eu o amo mais que tudo nessa Terra.

Dolores pode sentir nos lábios o frio da pele do peito do marido, sobre o qual havia acordado há três semanas atrás. Pode sentir o desespero escalar de notar que o peito não subia e descia com a respiração. Que não havia um coração batendo dentro dele.

- E justifica prender minha filha neste círculo? – a voz do homem estava se elevando.

- Se dependesse de mim, isso não aconteceria!

A senhora revia o demônio invadindo seu quarto de hóspedes, irritado, tentando quebrar a força de vontade da velha que o manipulava. Sua mão tremia contra a testa, em cujo anelar brilhava um anel de prata. Ela falava depressa e baixinho, focando seus sentimentos. Até que o demônio lhe perguntou “O que quer de mim?” E ela disse.

- Todos da sua estirpe sabem que os contratos não vem de graça. Não tente se livrar de sua culpa.

- O que mais eu poderia fazer? – os joelhos da senhora começavam a falhar.

O demônio, manifestado na figura de um homem enorme e forte, passou os dedos pelo queixo quadrado. Então disse: “Posso dar vida para seu conjuge, mas me dê um ser puro e que tenha vivido pouco tempo. Deve cuidar bem dela para que dure muito.”

Dolores caiu no chão e as lágrimas mancharam o chão.

- Desfaça o feitiço! – disse o homem.

- Não!

- Por favor, desfaça! – disse a mulher.

- Não!

- Me deixe sair daqui! – disse a menina.

- Não, não e não!

O quarto explodiu em som.

A senhora Dolores sentiu um impacto que vibrou seus ossos do topo da sua cabeça à base da sua medula. Um calor infernal correu pela sua cabeça e parecia derreter-lhe por dentro. Tombou de lado e sangue escorreu para o chão. Uma cápsula de metal tilintou no chão ao lado do homem e ele guardou sua pistola.

A mulher conseguiu passar suas mãos pelo círculo e pegar sua menina. Ambas se abraçaram tão fortemente que suas unhas se afundaram na pele uma da outra. O homem as cobriu com seu corpo e as apertou também.

Passaram sobre o cadáver da senhora quando saíram. A mulher, que carregava a menina, se apressou para sair pela porta da frente. O homem, contudo, parou para ver o humano idoso sentado na poltrona. Seus olhos estavam fechados e sua cabeça pendia para o lado, como se dormisse.

Mas estava sorrindo.

Respirando fundo, o homem partiu com sua família.

- FIM -

6 thoughts on “Senhora Dolores

  1. Gabriel Galego disse:

    Achei muito legal!

    Seria bom deixar claro no título ou de alguma outra forma que faz parte de uma série de contos. Como eu sabia q era uma série então fiquei curioso para ver os outros, mas é isso que você quer? Deixar meio em aberto para lerem os outros ou cada conto é independente?

    Acho que é isso! Boa história e corrige os errinhos de port que eu falei! :)

    o/

    • Bruno Eduardo disse:

      Obrigado pela leitura, Gabriel!

      Já corrigi os deslizes de português, muito obrigado.

      Este é o primeiro de uma série de contos que não tem ligação direta um com o outro, mas se passam no mesmo mundo: vai rolar alguns easter eggs entre os contos – mesmas localidades, alguns personagens de outros contos aparecendo – e talvez uma mesma personagem seja importante em mais de um conto. Vou trazendo novidades!

      o/

  2. Laís D. disse:

    Ótimo, como todos os seus contos! Estava com saudade de ler um deles :)

  3. Txai "Texugo" Garcia disse:

    Muito bom o conto Sir Ninja, evoluiu bastante de L & S pra cá, os textos já não estão tão descritivos. Alguns comentários (tenho poucos dessa vez) :
    1 – Não sei se por falha minha, mas o final ficou meio confuso. Acho que jogar toda a história pro final foi uma bad idea.
    2 – Jogou-se na cama não caiu mto bem pra uma senhora de 6x anos.
    3 – A cena do Clube do livro está simplesmente perfeita.

    Well, espero mais contos Sir

Ei, Bruno, eu tenho algo a dizer:

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