Em uma terra muito, muito, muito distante, havia uma torre muito, muito, muito alta. E no alto da torre havia uma princesa, posta lá por uma rainha bruxa má. Uma princesa muito bela, como todas as princesas são. No andar térreo da torre havia um dragão terrível, às ordens da tal bruxa e, a caminho da torre, havia um príncipe corajoso vestido de armadura brilhante e capa vermelha, cavalgando um corcel branco.
Contudo, como a torre ficava numa terra muito, muito, muito distante, o príncipe ainda tinha uma longa distância a percorrer. A rainha tinha suas poções terríveis e um reino para se distrair, mas e a princesa e o dragão? Convenhamos que uma torre num lugar realmente distante de tudo é um lugar realmente chato.
Por isso, numa das monótonas tardes, o dragão resolveu espiar a princesa. Seu pescoço era longuíssimo e a cabeça foi subindo, subindo, espiralando pelas escadas de pedra escura, e subindo… até que chegou aos aposentos da princesa. Não era uma sala muito grande; a cabeça do dragão encaixava-se perfeitamente no arco que levava às escadarias. Era, porém, uma sala de requinte, toda aveludada e com muito ouro. Havia um grande espelho enfeitado, ao lado de uma mesa também muito enfeitada, e sobre a mesa estava um prato com frutas, uma jarra com mel e pão. As frutas estavam todas comidas, mas tanto o pão quanto o mel estavam intocados.
A princesa estava sentada numa grande almofada de cetim, espiando pela janela, o queixo apoiado nas mãos. Tinha os cabelos muito longos -mas não tão longos quanto os de Rapunzel, pensou o dragão – e muito bem penteados. Uma escova jazia ao lado da princesa, meio jogada, sobre a almofada. Escovar os cabelos devia ser a única coisa que aquela moça tinha para fazer, fora olhar pela janela e comer só as frutas. O dragão sentiu pena dela, e logo depois se identificou. Chegou o mais próximo que um dragão pode chegar de um riso carinhoso.
O problema é que essa interjeição parecida com um riso carinhoso também era parecida com o rugido de uma besta mágica milenar com cara de poucos amigos, e foi assim que a princesa entendeu o recado. Ela levantou de sopetão, apoiando um dos pezinhos delicados na murada, indiferente à queda absurda a qual estava se sujeitando, olhos muito arregalados.
-Ei, qual é o seu problema? -disse o dragão, ao mesmo tempo preocupado e magoado.
A princesa, percebendo sua falta de compostura, respirou fundo, empinou o nariz e sentou-se novamente na almofada, desta vez virada para o dragão. Com esnobes olhos entreabertos, o que ela considerava parte da postura controlada que toda princesa deveria ter, ela confessou:
-Assustou-me deveras, Sr. Dragão.
O dragão pareceu sorrir novamente.
-É assim que princesas falam? Oras, guria, você tem o quê, dezesseis anos? Dezessete, talvez? Eu, que tenho a idade que tenho, não falo assim!
A princesa ficou sinceramente surpresa. Parte dela nunca gostara de falar pomposamente e ficou aliviada, mas a outra parte -aquela vozinha sensata que sussurra algumas coisas para nós -disse-lhe, toda olhos entreabertos: vá, confie no dragão! Baixe a guarda! Não é ele o vilão, a besta a cair, para que vivas feliz com teu príncipe para todo o sempre?
-O que realmente me surpreende é que um dragão fale! -disse a princesa, torcendo o nariz.
-Ah, claro! -o dragão grunhiu. Desta vez, foi realmente um grunhido. -Um lagarto gigante cuspir fogo e voar é normal.Falar é que é a parte estranha. -a princesa nada respondeu a isso e o dragão a observou com cuidado. Ela pareceu um pouco perdida. Mudou o teor do papo. -Nunca tinha visto um dragão antes, não é?
A princesa balançou a cabeça numa negativa. Mas na verdade tinha visto sim, algumas vezes, em livros. Sempre terríveis, sempre malvados… e sempre mortos, no final da história. Cara a cara com a fera, ela nunca havia desejado mais que seu príncipe chegasse, matasse o dragão e que a parte do “fim da história” que lhe interessava acontecesse.
Foi então que o dragão disse, curiosamente entretido:
-Modéstia à parte, eu já vi muitas princesas. Mas é a primeira vez que eu falo com uma.
A feição da princesa aliviou um pouco. Aparentemente, o dragão ia começar uma história. Ela ouvia muitas histórias em seu castelo e, nossa, como ela as adorava! Minha vida no castelo é que parece um conto, agora, pensou de repente. Tratou de abafar o pensamento.
-A vida de um dragão é complicada. -disse o dragão. -Não temos muitas coisas para fazer, sabe? Não somos como os homens, que podem fazer pão ou mexer com madeira ou cultivar a terra. Nosso trabalho é só vigiar. Mas somos bons no que fazemos, se somos! Vivemos muito, comemos quando queremos e nunca pegamos gripe, então não tiramos o dia para repouso. -o dragão estava se divertindo. A princesa sorriu. -Eu trabalho nessa torre desde quando minha memória consegue se lembrar. E muitas princesas vieram parar aqui.
A princesa consentia com a cabeça, absorta. Subitamente, notou algo que precisava comentar:
-O que aconteceu com as princesas? Nenhuma delas foi salva? -falou com notável preocupação. Ficou tensa. Talvez o dragão notasse e ficasse furioso. Não aconteceu.
-Bem pelo contrário! -o dragão mantinha um tom bem humorado. -Todas foram.
-Mas então você deveria estar morto!
O dragão gargalhou. A bocarra aberta tomou toda a sala e o nariz escamado ficou apertado no teto. Os dentes eram da altura dela, amarelos e velhos, porém claramente afiados. A língua tinha o tamanho de um crocodilo, um crocodilo dos grandes. Ficou claro para a princesa que aquele ser era uma máquina de morte. Pela primeira vez desde que chegara ali, cogitou a possibilidade de que seu príncipe encantado, ao invés de brandir corajosamente sua espada brilhante e derrotar o dragão e tal e coisa, poderia virar janta.
-A bruxa sente inveja e prende a princesa. O dragão é posto para garantir o cativeiro. O príncipe vem, derrota o dragão e salva a princesa. E eles são felizes para sempre. -disse o dragão, os olhos revirados para cima, a boca mole. Era assustador como aquele focinho reptiliano poderia ser chamado de face, tamanha era sua expressividade. -Lindo, não? Será que seria tão lindo se o dragão engolisse o príncipe com cavalo e tudo? Sabe, dizem que carne de cavalo é dura, mas tem pouco colesterol.
-Coleste-o-quê? -a princesa estava muito confusa. O dragão a ignorou.
-Faz parte do nosso trabalho fazer a coisa dar certo também, princesa. É nosso propósito cair e agonizar e deixar o babaca esnobe do príncipe subir e ficar com o prêmio. -a princesa reagiu ao xingamento e o dragão reagiu à reação engrossando o tom. -Ah, não faça essa cara. Achava o quê? Que o dragão era derrotado e que tudo ficava bem? Acabaram-se os problemas, para sempre?
-É o que o felizes para sempre significa!
O que o dragão diria ecoaria por todos os cantos, porque ele o disse a plenos pulmões. Mais tarde, a princesa choraria com a cabeça enfiada na sua almofada macia e se encolheria toda vez que lembra-se da potência da voz. E o dragão também choraria, por ter magoado tão profundamente um ser tão diminuto, tão inocente. O que o dragão disse -disse não, berrou -foi:
-NÃO HÁ FELIZES PARA SEMPRE, HUMANA!
O sol se pôs, a noite fria caiu, o dragão se recolheu e o resto já é sabido.
***
Caiu a noite. A princesa acabou dormindo, exausta do choro e confortável demais em sua almofada de cetim para evitar o sono. Sonhou com um homem belo, cabelos brilhantes como os dela, lábios carnudos. Armadurado, vinha montado num cavalo poderoso e veloz. Ele chegava à torre e desmontava. Empurrava as portas de carvalho maciço, que abriam rangindo alto. O rangido, de repente, virava um gruinhido e então um rugido. As portas não eram mais portas agora, e sim as membranas da bocarra do dragão. A torre virara o dragão, e ele era enorme! E o príncipe não era mais príncipe, era ela. Ela olhava em volta procurando o alazão, mas não havia mais cavalo para ela montar. A armadura era pesada demais para ela, ela não conseguia correr. A espada também era pesada, ela não conseguia lutar. O rugido ficava alto demais e tudo ficava escuro. Acordou quando o dia raiava, suada e ofegante. Despiu-se e foi tomar um banho.
O dragão não dormiu, porque dragões não dormem. Logo, também não sonhou nada. Passou a noite pensando na princesa, enrolado no próprio corpo, a cabeça apoiada no chão. Não pensava exatamente na reação dela, mas nas consequências do que ele tinha dito a ela. Dragões não deviam nem sequer conversar com as princesas, muito menos dizer o que ele disse.
O sol entrou pela janela da torre, acertando o olho do velho dragão, como sempre foi. Ele suspirou, levantando uma nuvem de pó que cobriria uma casa. Decidiu-se. Levantou a cabeça e a enfiou pelas escadarias da torre.
A princesa secava seus cabelos numa toalha de algodão de terras distantes, sentada em sua almofada quando ouviu o barulho do ar sendo deslocado pela escadaria. Já sabia que o dragão se aproximava e virou-se para o arco, esperando-o. Não tomou o mesmo susto que tomou no dia anterior, mas não pôde evitar perder o ar quando a cabeça enorme surgiu.
O mais surpreendente, porém, era que a feição dele era de muito remorso. Ele manteve silêncio por algum tempo, olhando-a e o quarto dela. Ela nada disse.
-Venho pedir-lhe desculpas, princesa. -disse ele, enfim. -Pela minha visita indecente e pelas palavras que disse. Peço-lhe que esqueça tudo. Se possível, que me perdoe.
A princesa semicerrou os olhos e disse:
-A visita e as palavras estão esquecidas; tu, perdoado.
O dragão não pôde evitar um sorrisinho. Criança, pensou. Criança demais para causar problemas. Tudo seguirá bem, agora. Ele assentiu com a cabeça e retrocedeu pelas escadas. O ar sendo deslocado parecia um trovão. Cada vez mais longe, cada vez mais baixo. Até que só sobrou o sussurro do vento de sempre correndo pela janela.
A princesa se surpreendeu pensando: lá se foi a única companhia que eu tinha. Chegou até a esticar as costas e dar um gritinho. Estava assim tão vulnerável a ponto de chamar um dragão de companhia? Afinal, ele tinha vindo ali só para gozar da solidão dela. Eu já vi muitas princesas, você nunca viu um dragão, ela lembrou dele dizendo. Chamou-me de ignorante. Falou mal da minha fala. Esnobou minha idade. Ele veio apenas para me fazer mal. Ele é mau. Ele é O MAL.
Era… não era?
Durante algumas horas, o pensamento da princesa ficou nesse ciclo, a negação recomeçando a afirmação. Ficou de cabeça baixa, olhando suas próprias mãos, brincando de entrelaçar os dedos, odiando-se pela dúvida, mas não conseguindo evitá-la.
A princesa não percebeu, mas naquelas manhã e tarde, ela não esperou um segundo sequer pelo seu príncipe.
Quando a noite caiu, a barriga da princesa reclamou. Ela comeu duas maçãs e uma pêra do prato sobre a mesa aveludada. Duas maçãs e uma pêra surgiram magicamente para compensá-las. A princesa imaginou se não havia alguma maneira de fazerem surgir ameixas. Adorava ameixas. Mesmo que precisasse trocar uma maçã, uma pêra e uma banana por só uma daquelas bem pretas e doces. Detestava bananas. Detalhes que sua mãe, a rainha bruxa má, não fez questão de saber quando enfeitiçou o prato.
Lembrou-se do seu tempo de criança no castelo e sorriu. Melvin, seu mordomo baixinho e sempre enluvado, não poupava esforços para fazer o que ela manda-se. O que incluia qualquer malvadeza que ela, como uma criança inocente como todas são, pensasse. Caía de quatro se ela precisasse de um cavalinho, protegia os gatos que ela achava -sua mãe, a rainha, sempre pegava os gatos e sumia com eles -, trazia vinte e dois padeiros com vinte e duas tortas diferentes, para ela enfiar o dedo em todas e dizer que a melhor era a de ameixa preta. E contava histórias. Às vezes, a princesa ignorava completamente a narrativa e prestava atenção só na boca de Melvin, que estava sempre escondida atrás do bigode, por mais que ele a abrisse, e ria adoidada.
Sentiu-se angustiada, como se o quarto estivesse encolhendo e escurecendo. Comparado com seu quarto de princesa em seu castelo, sua antiga casa, aquele quarto era um armário de vassouras. Só que sem vassouras. Sem nem uma única vassoura para que ela brincasse de ser bruxa ou qualquer besteira dessas para passar o tempo.
Como estava só!
Precisava estar? Não havia um ser lá embaixo, ao alcance de um grito? Um aparente bom contador de histórias, aliás, mesmo sem o bigode. Gritar ia ajudar a passar a angústia. Ela caminhou até o arco, apresssada, erguendo delicamente o vestido azul que usava.
-Senhor Dragão! -gritou -Apareça, Senhor Dragão!
O dragão apareceu.
-Chamou? -disse, trivialmente.
-Sim. -e mais nada.
O dragão fez um muxoxo. Deuses, ele fez um muxoxo!, pensou a princesa.
-E por que me chamou, princesa?
Havia, no castelo da princesa, uma biblioteca. Ninguém permitia que a princesa entrasse lá. Havia livros amaldiçoados, muito perigosos. Caso ela quisesse ouvir uma história, tinha de pedir para alguém, que iria até lá, pegaria um livro e leria para ela. Contudo, ela gostava tanto de histórias que chegou um dia que não havia mais livros novos. A biblioteca do castelo é a maior do reino, pensava a princesa, não é possível que não haja livros novos! Então, um dia, de noite, ela fingiu dormir após ouvir uma história repetida, enganando seu mordomo Melvin. Esgueirou-se pelo castelo e entrou na biblioteca. Era verdade: havia inúmeros livros que ela não conhecia ainda. Durante várias semanas, a princesa manteve o ritual, lendo um livro por noite.
Em um dos livros, uma aprendiz de maga encontrava um bruxo malvado, que era muito mentiroso. A aprendiz, que era muito esperta para sua idade, disse-lhe: “Se você sempre mentir sobre o que quer, só conseguirá o que não deseja”.
Não havia livros amaldiçoados na biblioteca. Apenas livros que ensinavam demais.
Por isso, a princesa resolveu falar a verdade.
-Chamei-o porque estava me sentindo só.
O dragão sorriu. Cada dente tinha a altura da princesa. Ela recuou alguns passos.
-E então quis a companhia de um dragão? Essa é nova para mim. A maioria prefere encarar o demônio do que eu.
-Quero que me conte uma história. -a princesa disse. Ingenuamente, falou com um tom de ordem. O dragão notou-o, mas isso só fez seu sorriso se alargar mais.
-O que te faz pensar que eu sei histórias, princesa?
-Você disse que já tinha visto muitas princesas e que viveu muito. Deve saber muito também, senhor dragão.
-De fato. Saber muito não é termo bom o bastante para minha sabedoria, se me permite a falta de modéstia.
-Então me conte uma história, por favor! Estou tão só nessa torre.
-Contarei sim, princesa. Contarei uma história de princesas.
***
Numa terra muito distante haviam dois reinos em colapso. Um dos reis tinha uma linda filha; o outro, um viril rapaz. O pai do príncipe decidiu casá-lo com a princesa do outro reino, para que os dois reinos se uníssem e então prosperássem. Escreveu uma carta com sua proposta, selou-a com o sinete real e a entregou a um mensageiro em quem confiava muito. Deu-lhe seu melhor cavalo e desejou-o boa sorte.
Uma semana depois, o mensageiro chegou ao outro reino. Havia uma grande comoção; muitas pessoas conversando e sorrindo, caminhando todas para um mesmo lugar. O mensageiro questionou um vendedor de flores e ele o disse: “é um forasteiro, com certeza! Hoje é o décimo quarto aniversário de nossa abençoada princesa, estamos indo presenteá-la!” Por isso, toda a família real estava na praça central da cidadela, recebendo os cumprimentos do povo.
O mensageiro seguiu o fluxo das pessoas. “Talvez possa entregá-la logo a carta”, pensou consigo. Porém, ao ver a princesa, o mensageiro sentiu seu coração dizendo “Você nunca entregará esta carta a ela. Pois não irá querer que ela se case com ninguém que não seja você mesmo.” Era linda. Linda, como nada mais no mundo poderia ser.
O dia do aniversário da princesa passou rápido para o mensageiro. Ao cair da noite, a família real se recolheu e assim fez o povo. O mensageiro precisava de algum lugar para ficar. Tinha recebido um saquinho mágico do rei, que estava sempre cheio de moedas de ouro, para qualquer eventualidade; era um bom momento para usá-las. Pagou por uma noite numaa estalagem e por uma bebida, para clarear as idéias.
Na mesa ao lado, ouviu dois homens conversando.
-O que eu não daria para estar com a vendedora de pães! -disse um deles.
-Ela não te desejaria. Teria nojo de um homem sujo como você. As damas preferem os rapazotes, limpos e cheirosos.
-Mas não sou mais rapazote e nenhum perfume esconderia meu cheiro.
-Bem, então me escute. Há, no beco mais escuro da rua mais escura do reino, um mago que dizem ser muito poderoso e ganancioso. Venderia qualquer mágica para aquele que pudesse dar dinheiro.
“Ele poderia achar uma maneira de eu me encontrar com a princesa!”, pensou o mensageiro. Levantou-se de sua mesa e rumou para o beco mais escuro da rua mais escura do reinado, que era tão escuro que não foi difícil achá-lo, mas foi bem difícil andar por ele. Enfim, achou uma escadaria que descia para o subsolo. Um ar quente e fedido subia de lá. O mensageiro prendeu a respiração e desceu.
Logo, havia uma fraca luz esverdeada para iluminar seu caminho. Encontrou-se em uma saleta de paredes de pedra cobertas de estantes com livros. Era úmido, e os livros estavam todos retorcidos e bolorentos. Um gato dormia entre eles. Contudo, um homem barbado atrás de um caldeirão era ainda mais bolorento e retorcido. A luz verde vinha da estranha fogueira que mantinha seja lá o que havia no caldeirão fervendo e era a fervura que fedia tanto. No lusco-fusco, o mensageiro via o velho bruxo sorrir com um só dente.
-O que deseja, meu rapaz? Sei muito e posso fazer o que quiser, caso possa pagar.
-Desejo ver a princesa e dizer a ela o quanto a amo. -disse o mensageiro.
-A princesa é muito bem protegida, mensageiro. Como pensa em falar com ela?
-A princesa do reino de onde vim banháva-se sozinha, numa piscina especial. A princesa deste reino deve fazer o mesmo.
O bruxo passou os dedos nodosos pela barba dura de gordura.
-Já sei o que farei. Darei-lhe duas poções que lhe transformarão numa mosca, para que entre e saia do castelo sem problemas. – o bruxo acenava com a cabeça, satisfeito com sua engenhosidade, e o mensageiro sorria esperançoso -Serão quarenta moedas de ouro, mensageiro. Mostre o dinheiro antes.
O mensageiro virou a bolsa de moedas nas mãos ávidas do velho. O dinheiro não parava de cair. O mago riu uma risada ríspida, cansada, ao sentir a juventude daquela magia, tão diferente da sua.
O bruxo mexeu a mistura de seu caldeirão com uma grande colher de pau. Depois, despejou conteúdos de vários frascos, todos os líquidos também fedidos. Pegou uma mosca em pleno vôo -com uma agilidade que o mensageiro não esperava -e a jogou no caldeirão. A mistura mudou de cor no mesmo instante, se tornando cinza, roxa e verde brilhante. Pegou dois frascos de uma estante atrás dele, despejou a poção neles e os entregou para o mensageiro.
-Para voltar a sua forma original, bata suas asas de mosca três vezes, lentamente. Agora vá, mensageiro tolo e apaixonado! Saia de perto de mim, se terminou o que veio fazer aqui.
O mensageiro gagejou um obrigado e saiu.
No dia seguinte, de tarde, o mensageiro foi até o castelo. Escondeu-se em uma moita, perto do portão principal, tomou a poção e virou mosca. Voou para dentro do castelo, passando pelas colunas, criados e inúmeras janelas. Encontrou uma da qual saía um vapor cheiroso e úmido e sabia que ali era a sala de banho. Entrou.
Encontrou a princesa, nua, banhando-se na água quente. Os cabelos longos se espalhavam pela superfície, lindos. Ela estava de olhos fechados e sorrindo, saboreando o banho. Uma governanta deixou alguns sais de banho ao lado dela e disse que esperaria lá fora. A princesa, abrindo só um olho, agradeceu e pegou os sais. O olho também era lindo.
O mensageiro-mosca esperou a governanta sair e pousou atrás de uma coluna, às costas da princesa. Estavam apenas ele e ela na sala. Bateu suavemente suas asas duas vezes, mas, ao se preparar para a terceira vez, um pensamento o atingiu como um raio: “Se eu não entregar a carta, meu reino entrará em colapso e este também! Muitas pessoas sofrerão!” As asas pararam.
A princesa soltou um risinho. “Mas ela é tão linda, eu a amo tanto! Nosso amor superará todos os problemas. Serei príncipe ao lado dela, rei ao lado dela, e salvaremos ambos os reinos!” Começou a bater as asas de novo. Uma vez, duas vezes, três…
Ele não era príncipe, nem rei. Era mensageiro e quem deveria casar era o verdadeiro príncipe, filho do rei ao qual era fiel e que confiou-lhe uma tarefa muito importante. Não devia, não podia fracassar, ainda mais por uma fraqueza sua. “Amor não é fraqueza.”, pensou furioso.
Seus pensamentos conflitantes brigaram por muito tempo e ele não notou quando a princesa chamou a governanta, avisando que terminara seu banho. A governanta notou a mosca e bateu nele com uma toalha. O mensageiro-mosca caiu morto, levando para o além a carta que deveria ter entregue.
O rei do outro reino pensou que o daquele reino havia ignorado sua proposta e ficou furioso. Acusou-o, e então começou uma briga. A briga gerou guerra e os dois reinos sucumbiram.
Fim.
***
-Que história triste, senhor dragão. -a princesa disse, sentada no chão de veludo de sua câmara, abraçada aos joelhos.
-De fato é, princesa, como são muitas histórias que conheço.
-Por que não inventa finais felizes para elas, senhor dragão? São só histórias, afinal. E eu não gosto de finais tristes.
O dragão sorriu, mas tristemente. Olhou pela janela, pela qual a princesa olhava quando a viu pela primeira vez. Já anoitecia. O céu estava tingido de laranja.
-Dragões não podem mentir, princesa. Podemos omitir, mas nunca mentir. Mas mesmo se pudéssemos, eu não mudaria o final dessa história.
-Por que não? Ele é tão triste…
-O mensageiro não teve coragem de fazer nada: nem declarar seu amor, nem entregar sua carta. Na verdade, ele poderia ter feito ambos, mas nada fez. Por isso, tanto ele quanto os reinos sofreram.
A princesa observava-o, os olhos brilhando. O dragão aproximou o focinho dela e lhe disse, bem baixinho.
-Devemos agir, princesa. Devemos fazer aquilo que queremos fazer, mesmo quando parece ser a coisa errada. Porque, se não fizermos o que queremos, a vida pode acabar sem ter valido a pena. Essa é a moral da história. A história existe para nos ensinar isto. Se mudarmos a história, mudamos a moral e tudo deixa de fazer sentido, mesmo que o sentido atual seja triste.
Imediatamente, a princesa abaixou os olhos, depois o queixo, depois a cabeça toda. Cabelo lhe cobriu a face. O dragão recuou um pouco, receoso de que tenha cometido algum erro, apesar do que tinha acabado de dizer sobre erros. Então, a princesa falou e o que disse lhe espantou muito.
-Acha que você estar aqui é um erro, senhor dragão? -disse, sem levantar o rosto.
A primeira frase madura que ouvira da princesa.
-Acho. -disse rapidamente, apesar do espanto. -Acho, porque estou lhe dizendo coisas reais demais.
-Eu não entendo. -a princesa ergueu a cabeça. Tinha os olhos lacrimosos.
-É até melhor que não entenda. Mas, princesa, digo-lhe: não vou ignorar seus chamados e pedidos. Se gritar meu nome novamente, eu virei. Se pedir uma história, contarei-lhe uma, duas, dez. Mas é um erro. Faça o que deseja, mas saiba disso: é um erro.
***
Anoitecera e o dragão se fora há boas horas, mas a princesa continuou sentada no chão de veludo, cabeça baixa, pensativa. É um erro. Por quê? Por que estou lhe dizendo coisas reais demais. Por quê? Por que era um erro saber dessas tais “coisas reais”? Que coisas reais eram essas? Quando algo era “real demais”? Deuses, quem o dragão era, afinal? Devia ser mesmo o mal, por colocar tantas dúvidas na cabeça dela. Contudo, intitular tais perguntas como más não ajudava a esquecê-las, pelo contrário.
A princesa levantou e sentiu as costas doerem. Tinha ficado sentada ali por quanto tempo? Dez, doze horas? Sentia fome. Comeu frutas, as mesmas de sempre, que não gostava. Levou uma pêra meio comida para a janela e observou o mundo exterior. Havia campos gramados até onde a terra encontrava o céu, agora azulados pelo breu noturno que não era bem breu. Havia uma lua prateada e gorda lá no alto, às vezes tapada por nuvens miúdas. Não havia um só pássaro, uma só ovelha, um só boi. Deuses, não há sequer insetos aqui! O que estou fazendo nesse final de mundo?
A princesa não encontrou resposta por quase um minuto. Quando lembrou-se, bateu com a mão na testa. Havia se esquecido completamente do príncipe, como era possível? Ficou a olhar perdidamente para fora, simplesmente confusa, até o sono pesar e ela dormir ali mesmo, sentada na almofada de cetim que não reconhecia mais sua ama.
O dia seguinte raiou. A primeira coisa que a princesa fez ao acordar foi ir até o arco e chamar o dragão. Havia sonhado com ele. Nada de especial: apenas lembranças de quando ele contava a história do mensageiro, pequenos detalhes como um sorriso torto para a direita ou como ele mudou a voz ao interpretar o bruxo do beco mais escuro da rua mais escura. Contudo, o dragão não apareceu. Quem surgiu às escadas no lugar dele foi um homem.
-Príncipe?! -a princesa exclamou.
O homem girou nos calcanhares, olhando para trás.
-Onde?
-Falo de você! -a princesa não sabia se estava divertida ou irada.
O homem sorria quando virou-se para ela. Um sorriso familiar, apesar dela nunca ter visto-o antes. Será que seu amor prometido havia feito-a conhecê-lo antes mesmo de saber seu rosto?
-Não sou príncipe algum. Vim assim porque é muito mais conveniente para mim. Meu pescoço dói quando fica esticado por tempo demais. -Os ombros da princesa caíram e ela suspirou, surpresa. Os olhos estavam perdidos. Lentamente, a boca entreaberta virou um sorriso -Imagino que queria que eu fique por mais tempo hoje, pois me chamou bem cedo, princesa.
Ela esperou ele acabar. Entreabriu os olhos e falou, a voz sarcástica, mole.
-Então você é o dragão. Certo.
O homem, contudo, mantevesse sério. Ou tão sério quanto aquele sorriso permitia.
-Nós nos manifestamos de várias maneiras, princesa. Algumas mais óbvias, outras menos. -disse o homem/dragão, entrando no quarto- Bem, adoraria sentar na sua almofada de cetim, se me permitir. Subir essas escadarias como humano cansa.
A princesa o observava de pé, braços cruzados. Apoiou as costas no arco e manteve os olhos no homem que se esparramava na sua almofada. Ele era jovem, barba mal-feita, camisa de estopa, calça e botas de couro cru. Um camponês, pensou a princesa. Não; parece mais um rufião. Contudo, como ela bem viu na noite passada, não havia nada nem ninguém até onde os olhos enxergavam e haviam janelas nos quatro pontos cardeais do quarto, apesar dela preferir a janela que apontava o leste. Seu príncipe viria do sol. Era o que sentia.
Era o que sentia antes.
O homem sentou-se e apoiou os cotovelos nos joelhos. Coçou a barba áspera, olhando para o quarto e depois para a princesa. Ela permanecia quieta, observando-o. Pensou em questioná-la, mas um rumo muito mais divertido para a conversa lhe veio à mente.
-Você está bem acabadinha, hein, princesa?
A princesa ficou realmente surpresa. Olhou para suas roupas. A armação de seu vestido estava toda torta; as jóias costuradas em seu corpete estavam caindo. E, apesar dela não poder ver, seus cabelos estavam desgrenhados.
-Se alguém a visse assim, diria que você era a bruxa. -disse o homem e caiu na gargalhada.
Uma gargalhada tão gostosa que a princesa não conseguiu ficar irada.
-Vou me arrumar. Com licença.
O homem pegou uma almofada da cama e tapou os olhos. A princesa riu.
-É sério! Saia do quarto.
-Eu não vou espiar.
-Sei.
-Garota, olhe seu corpo. -disse o homem, levantando tortamente a almofada, como um pistoleiro levantaria seu chapéu de aba baixa -Você não tem nada aí que eu não tenha visto maior, melhor ou mais maduro. -e soltou a almofada de volta no rosto.
Nunca antes a princesa tinha recebido uma crítica a sua beleza. Contudo, pensava agora, nunca recebi um só elogio ao meu corpo. Todos os elogios eram para o cabelo longo, para os olhos claros, para o sorriso angelical. Anjos eram sempre crianças, certo? Ela tinha o corpo de uma criança, mesmo. Nunca antes, também, a princesa tinha ficado tão enrubescida. Até as orelhas ficaram vermelhas. Ela virou-se de costas para o homem enquanto se despia. Mas olhava-o pelo espelho e os deuses sabiam como ela torcia para ele levantar aquela almofada dos olhos.
Ele não a levantou.
Ele conseguia espiar do jeito que ela estava.
***
-Você só tem histórias tristes, dragão? -perguntou a princesa após um sem número de histórias que ouvira.
O dragão, ainda como homem, estava esparramado na almofada de cetim com as mãos cruzadas atrás da cabeça. A princesa, que tinha colocado uma camisola de seda bem justa no corpo, estava deitada de barriga para baixo na sua cama, abraçada numa almofada -a mesma que o homem usara quando fingira tapar a visão -, balançando os pés. A mão brincava com uma mecha de cabelo. A voz estava mais doce. Ela está tentando ser sensual, pensou o dragão, sorrindo.Nada mal para uma novata.
-Não são todas histórias tristes, princesa. Mas em todas acontece algo errado, mas é justamente por isso que as contamos.
-Como assim?
E lá vou eu de novo, pensou o dragão, ensinar mais realidade para essa menina. Quando alguém reclamar da sua falta de inocência, ainda vão dizer que a culpa é minha. O dragão sentou-se.
-Histórias são fragmentos da essência humana, princesa. Cada história é um pedacinho de como um humano sente, o que sente, por que sente e, principalmente, como se sentirá quando sentir. Histórias são ensinamentos daqueles que já sentiram para aqueles que ainda sentirão.
-Sentirão o quê?
-Raiva, inveja, cobiça, arrependimento, tristeza, alegria, amor… essas coisas.
A princesa pensou sobre.
-Você não deve conhecer muitos desses sentimentos, não é, princesa?
Ela olhou para ele e balançou a cabeça, levemente envergonhada.
-Não é culpa sua nem de ninguém. É assim com todo mundo, princesa.
-Até com você, dragão?
-Não. Minha função não é sentir. A dos humanos é. Nós, dragões, somos vigias. Nós cuidamos para que tudo dê certo.
Os dois ficaram se encarando. O dragão passou a mão pelo rosto da princesa, delicadamente. Ela sorriu e se deliciou com o carinho.
-Sabe… -a princesa começou, pegando a mão do dragão -Nas histórias que me contaram, o dragão sempre era o vilão. Mas você não é nada vilão, né? Você acabou de dizer que está cuidando para que tudo dê certo.
Silêncio. Os olhos do homem se perderam no vazio, por minutos. Deuses… oh, deuses, o que eu fiz?
-No nosso caso, eu tenho que ser o vilão porque é assim que eu mantenho a história no rumo certo. -disse o dragão muito depois. Sua voz estava pétrea, seus olhos, baços -Lembra o que lhe disse sobre fingir a morte para o príncipe poder passar? Esse é o meu papel. Só assim o conto de fadas continua. Mas eu não cumpri devidamente meu papel aqui, princesa. Eu errei ao entrar em seu quarto e você errou ao continuar me pedindo para que eu entrasse. Se não pararmos aqui, o conto de fadas estará arruinado.
O dragão sentiu a mão da princesa apertar a sua.
-Como assim?
-Fique tranquila, princesa. Nada está perdido. Se pararmos de nos ver, tudo correrá normalmente.
Confusa, ela não reagiu. Apenas baixou os olhos. O dragão olhou para fora: já era noite de novo. Contudo, o dragão não fazia idéia de quantas noites haviam se passado, já. Duas, dez, talvez dezenas delas.
-Devo ir. Já é tarde. Adeus. -e levantou-se, soltando-se da mão da princesa.
Ela se levantou rapidamente.
-Não! Fique mais, conte-me mais histórias!
Mas o dragão não diminuiu o passo nem respondeu. Ela correu e pegou-o pelo pulso.
-Por favor, fique!
-Não é certo, princesa. -e continuou andando.
A princesa correu para frente dele. Não parecia, porém, a mesma princesa. Estava mais alta, mais forte, mais atraente. Havia perfume de mulher onde antes só houve infância. A princesa pegou-o pelos braços.
-Eu não estou entendendo nada, mas eu quero entender! Mesmo que seja um erro, eu quero entender. Ensina-me, dragão.
É inevitável, pensou o dragão. Cedo ou tarde este momento chega, para todas elas, para todos eles e você sabe disso, Senhor Dragão. Tardar o inevitável será inútil para esta jovem. Ela está pronta. Ensina-a. Faz dela mulher.
A princesa e o dragão se jogaram na cama e se amaram.
***
A princesa acordou mais tarde que o normal no dia seguinte, e também mais feliz. Quando a confusão do despertar sumiu, ela reparou que o dragão não estava ao seu lado na cama, nem em nenhum lugar do quarto. Ainda estava nua, então procurou pela camisola que vestia na noite anterior e a encontrou jogada no chão, longe da cama. Levantou, pegou-a e a vestiu. Há dias atrás, eu teria vergonha de levantar nua e passar pela janela, pensou, e riu de si.
Comeu pão e mel, para variar, e até as frutas pareciam gostosas. Sentia-se outra.
Ao terminar, gritou pelo dragão, mas desta vez nem cabeçorra, nem homem, surgiu das escadarias. Gritou novamente, mas cadê o dragão/homem? Ele me usou. Ah, ele me usou! O pensamento a enraiveceu, mas já tinha maturidade para pensar mais um pouco. Pensar nas palavras do dragão na noite passada: “Fique tranquila, princesa. Nada está perdido. Se pararmos de nos ver, tudo correrá normalmente.” A certeza foi grande. O príncipe -ah, o belo e corajoso príncipe encantado -, havia finalmente chegado. Ele atacaria o dragão, que fingiria estar morto. Ele subiria e viria falar com ela, demonstrar seu amor eterno com um selinho e levá-la para seu castelo, onde seríamos felizes para sempre.
NÃO HÁ FELIZES PARA SEMPRE, HUMANA!
Deuses… ela precisava se apressar.
Por mais que corresse, as escadarias pareciam não ter fim. Mesmo após horas, a sensação era de estar presa num túnel infinito de degraus, como se a escada estivesse subindo enquanto ela tentava descer. Sentou-se duas vezes, para descansar e chorar um pouco de desespero e claustrofobia. Mas levantou e continuou, porque não podia deixar o dragão morrer. Quando vozes cortaram o silêncio, ela pensou estar fantasiando, mas não estava.
-… cairá perante minha lâmina!
-Claro, claro, blá blá blá. -disse a voz poderosa do dragão -É só por isso que eu não te como. Entrar não ia ser difícil, mas para sair…
Houve uma risada meio arrogante, de uma voz bem pequena, quase afeminada.
-Sarcástico tu és, dragão terrível. Mas em breve, não serás mais; em breve, não serás mais nada!
-Sabia que eu conheci uma princesa que falava exatamente assim? Você teria se dado bem com ela. Se ela ainda existisse.
A princesa estava na última dúzia de degraus e já podia ver o piso brilhante de pedra do térreo. Estava excitada e corria mais, porém parou de sopetão ao ouvir o que o dragão dissera. Houve um tempo de silêncio.
-Tu a matou? Mataras a princesa! Oh, vil criatura, eu vou te…
-Matar? – o dragão completou e riu -Que novidade! Nossa, eu preciso de um emprego novo.
Nas escadas, a princesa sorriu e desceu o último lance de degraus. O salão do dragão era gigantesco, abobadado. O dragão era ainda maior do que ela tinha pensado. As asas, as patas, o corpanzil… talvez ele poderia engolir um vilarejo inteiro e as pessoas continuarem vivas lá dentro, pensando que estão apenas passando por uma noite longa demais. E meio úmida, eu acho… Putz, eu peguei o humor dele, pensou a princesa.
E perto da cabeça do dragão, havia a existência minúsculoa do cavaleiro armadurado, perto da existência pouco maior do cavalo branco. Ambos eram menos brilhantes do que tinha imaginado. O dragão virou a cabeça para ela.
-Olhe! Não vai precisar subir a torre para se chatear. -disse o dragão e o príncipe olhou -Parece que alguém quebrou seu galho.
O que o príncipe viu foi uma camponesa com uma camisola indecente e cabelo desgrenhado. Tirou o capacete. Seu próprio cabelo de anjo estava suado, mas belo, assim como era todo o rosto e olhos.
-É sério que você é a princesa? -disse, abobalhado.
-Não. Sou a Maria Teresa de Calcutá. Estava só de passagem, percebe?
-Ó, perdão… confundi tu com uma princesa que vive no topo da torre.
O dragão bateu a pata na testa. Pelo amor de Deus…
-É claro que eu sou a princesa, seu babaca!
-Ó! Mais perdões ainda, então. Sou o príncipe, minha princesa. Vim buscá-la. Mas não esperava…
A princesa e o dragão olhavam-no com sobrancelhas erguidas.
-Bem… eu tenho que matá-lo então, dragão!
-Por quê? -disse o dragão.
-Bem… porque senão eu não poderei resgatar a princesa.
-Mas a princesa está bem ali.
-É… mas… bem, princesa… você poderia voltar para o topo da torre?
Foi a princesa que bateu na testa agora.
-Gente, eu estou confuso! Não era para ser assim! Não estava planejado assim!
-E é por isso que você não sabe o que fazer. -disse a princesa -Porque você não é um homem. É uma personagem.
Houve silêncio. O príncipe baixou os olhos e distraidamente fez carinho no focinho do cavalo. O dragão apoiou o queixo na pata dianteira, sorrindo. A princesa se aproximou do príncipe, postura muito firme, e ele não conseguiu olhá-la nos olhos.
-Acho que devemos dizer adeus.
-Nem ferrando. -disse o dragão -Algum dia, você estará procurando algo o alguém que estará no topo dessa torre. Iremos nos encontrar de novo e você terá que me encarar.
-Não vai ser nada fácil!
-Não. Mas não tem graça se não for.
O dragão desceu o focinho para a princesa beijá-lo. Então, ela subiu no cavalo do príncipe e saiu da torre, cavalgando, e sumiu no horizonte dourado do sol nascente.
***
Sobraram dois seres no enorme salão da torre.
-O que eu faço agora, dragão? -disse o príncipe.
-Suba. -respondeu o dragão -Vamos conversar um pouco. Ah! Para começo de conversa, para você, eu sou uma dragoa.
Muitoo booom! adorei, mesmo ^^
ri muito no final XD
Valeu pela comentário, May! =)